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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Um Lugar Desperdiçado

O veneno que corre em minhas veias a cada dia ameaça parar meu coração. Ele corre e se espalha por entre cada célula, lançando gritos de terror, de paranoia, de incompreensão. Inunda meus olhos, turva minha percepção, me faz querer correr quando mal consigo levantar as pernas. Me faz ver cada um na rua como meu inimigo em potencial, como se estivessem prestes a me fazer algum mal. Como se eu merecesse esse mal, como se eu devesse esperar por ele o tempo inteiro e estar preparado. Mas por que?

Suas gotas não são negras ou esverdeadas - ele circula na cor do meu sangue, completamente disfarçado. Faz firulas e não pára exatamente em um lugar. Às vezes parece se esconder em minhas mãos, deixando-as trêmulas e desajeitadas; ou em minhas pernas, provocando os tão conhecidos escorregões e pequenos acidentes. E é nesse meio tempo que eu acredito que posso ser uma alma livre, me dedicar a encontrar algo de que gosto e me divertir, sentir o tempo e o vento passarem por mim como se não fossem grande coisa. Mas logo ele sobe direto para a minha cabeça e jorra seus jatos pungentes em meu cérebro, me infectando com as verdades obscuras que carrego desde que me entendo por gente.

Aí me pego querendo saber quem me injetou esse veneno. Foram meus pais? Por seus erros em suas tentativas para criar essa criança estranha, silenciosa, muito auto-crítica e nada auto-confiante? Porque, como vejo hoje e como os conheço, eles não poderiam ter feito melhor. Não naquela época, não com aquelas cabeças. E, mesmo assim, eles fizeram e fazem sempre o melhor que podem. Então como dizer que o veneno veio deles?

Então, veio das outras pessoas que me cercavam? Não me sentia à vontade ou seguro em lugar algum, jamais poderia abaixar minha guarda para deixar ninguém, ninguém se aproximar. Como se pudessem descobrir o motivo pelo qual eu não deveria existir nesse mundo e mandassem me apagar por completo. Como se eu já soubesse em meu interior que não deveria estar entre essas pessoas, causando-lhes pequenos problemas, lançando gritos sufocados de socorro que quase nunca eram ouvidos e assumiam a forma de atitudes estranhas, súbitas e de difícil compreensão.

Quando paro para pensar, vejo duas fortes vontades lutando dentro de mim: a vontade de sumir, de virar vapor, de assumir a forma ideal para uma pessoa que sente que não deveria existir, de deixar esse tal segredo tenebroso - que até eu desconheço - vir a tona e acabar com toda e qualquer relação possivelmente positiva que eu possua; e a vontade de viver, de continuar existindo. Não sei dizer exatamente porque quero continuar existindo, talvez esteja apenas acostumado a existir e não queira abrir mão disso. Mas existir dói demais, cansa demais, não sei se isso é para mim.

Falando assim, poderia soar como se eu tivesse alguma doença sem cura, ou fosse maltratado todos os dias, ou como se minha vida estivesse qualquer coisa próxima às daquelas pessoas que nem sabem se terão o que comer amanhã. Só que mesmo tendo casa, comida, roupas, algum dinheiro, conforto, família  - tudo que deveria fazer uma pessoa se sentir, no mínimo, satisfeita -, me sinto infeliz. E não é culpa de mais ninguém além de mim mesmo. E saber do tamanho ínfimo que tem os meu problemas se for comparar com, sei lá, os sem teto ou os jovens que são forçados a entrar para o tráfico, isso realmente só me deixa pior comigo mesmo. Porque é algo que eu não deveria sentir, que as pessoas que eu conheço não parecem sentir. Mas sinto mesmo assim.

Esse veneno fui eu quem injetou. Comecei desde cedo, me sentindo forçado pelas situações, pelas pessoas, sem nunca decidir tomar um caminho diferente. Fui viciando nele. Me tornei oco, obsoleto, disforme e fraco. Cresci em tamanho e só aumentei a minha superfície, mas guardei bem fundo todas as explosões que aconteciam a todo o momento. Porque eu sempre estive e estou com tanto medo...

E venho resolver isso através de um texto, cuspindo palavras escolhidas com cuidado para que tentem passar o real significado da dor que esse veneno provoca. Talvez esperando por palavras milagrosas, por um apoio sobrenatural de alguém que o drene para fora de mim. Esperando de alguém a responsabilidade que deve ser só minha. Hoje, pela primeira vez, pensei em me machucar de verdade, como se isso fosse resolver alguma coisa, e isso realmente me preocupa. Jamais farei nada contra minha vida, porque nem meus pais e nem meus amigos merecem isso. Mas viver como eu vivo... não sei se é viver de verdade.

Melhor engasgar, contudo, do que jogar veneno contra os outros. Porque, diferente de mim, eles tem uma vida para viver, uma vida preciosa e cheia de problemas diversos, que demandam atenção. Não gosto de ser um buraco negro que suga a luz alheia, especialmente quando sou rodeado por tantos seres luminosos. Gostaria de brilhar um dia também, mas nem dessa luz eu me sinto digno em alguns momentos.

Que coisa maluca, acreditar com tanta veemência que não mereço ser feliz. Quase como saber disso, como se a cada curva da vida essa informação me fosse ensinada e reafirmada. Talvez outra vida em meu lugar se saísse infinitamente melhor e tivesse mais coragem para se entregar aos seus desejos e fazer de sua própria felicidade seu foco central. Mas essa vida não sou eu... Ainda, pelo menos. A negatividade brota de minha alma como ervas daninhas e fungos maliciosos, ansiosos por devorarem uma floresta que teria solo, luz e água para crescer e brilhar ao sol.

É como um lugar desperdiçado.

domingo, 24 de março de 2013

As palavras querem sair

Elas querem sair. Me sento, me levanto, caminho entre os cômodos da casa. Olho em torno, vejo as paredes brancas, as portas abertas, as janelas da rua. E as palavras querem sair de mim. Como se estivessem engasgadas aqui dentro por tempo demais, como se lutassem por entre minhas cordas vocais, se espremendo para ganharem liberdade, elas sobem como um vomito necessário. Sobem e querem sair de mim, deixar minhas entranhas, deixar minha boca e saltar língua a fora.

Mas não sei dizer que palavras são essas ou se apenas me recuso com veemência a olhá-las. São poderosas, querem ribombar como um trovão, marcar o início do controle próprio das rédeas de minha vida. São palavras de libertação, gritos contra o desespero e contra a angústia, contra o medo em si. Palavras que sequer pretendem formar frases com sentido ou serem compreendidas por quaisquer outras formas de vida. Não, elas querem me acertar com seus punhos verbais, enfiando em mim o bom senso de que tanto preciso para lidar com os meus problemas mais recorrentes. Elas querem derrubar meus óculos e me fazerem ver o mundo como ele é pela primeira vez. Querem romper as paredes, fazer ruir todo o meu castelo e me colocar em meio à balbúrdia que é viver em um mundo como o nosso.

Porque elas sabem que sou capaz de sobreviver a isso. Elas sabem e querem sair. Não querem sair como palavras, aquelas que irão se propagar pelo ar e sumir em seguida. Elas querem sair e tomar novas formas, modificar o que conheço de mim e das outras pessoas. Querem virar estímulo, ação, atitude. Querem romper todo limite que impus a mim mesmo em todos esses anos de existência.

Engasgo, passo mal, rolo na cama e espero passar. E não passa, a sensação cresce, ao passo em que não sei se posso ou se devo realmente gritar para o mundo o que quero gritar. Penso no tanto que quis fazer e não fiz, ou no tanto que fiz e nunca mostrei a ninguém. Tudo que é meu e que é belo, mas que por ser meu perdeu o valor de beleza para mim. As palavras querem sair. Elas vem saindo, como um parto feito às pressas, como o nascimento de um novo ser que já veio velho ao mundo. Não consigo segurá-las! Mas não é que eu queira mesmo segurá-las - quero vê-las jorrar pelo universo!

A razão não é mais parede forte para deixá-las reprimidas - emoção é tudo que sou, tudo que consigo ser. E deixo jorrar, jorrar, jorrar palavras. Todo meu vocabulário escapando de minha garganta até não haver mais voz no meu corpo. Jorram luz e escuridão, jorra o que é preciso para se viver nessa vida. Me torno um ponto brilhante no mundo, um novo foco atuante, uma nova possibilidade divina. As palavras saíram de mim.

Saíram para anunciar o começo da época da coragem. Saíram para desmascarar o culpado, para afagar o inocente. Saíram para que eu soubesse que, contra todas as possibilidades, ainda estou vivo.

E eu, agora oco e sem mais palavras, me posiciono na largada.

Porque a corrida para minha vida vai começar.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Admito: sozinho não dá


Até onde se estende a minha incapacidade de me colocar à prova? Me sinto sempre acorrentado à minha imperfeição inata, aquela da qual jamais conseguirei me livrar, na qual eu gasto esforços enormes e infrutíferos - tudo para, um dia, ter coragem e experimentar. O que? A vida, o que as pessoas normais experimentam o tempo todo. O amor, aquele que vem de todo tipo, tamanho, cor e forma; aquele que tem traços únicos e surge de uma troca de olhar, de um movimento corajoso, de uma atitude. Mas, com uma consciência quase palpável de que não há como eu ser amado por muito tempo por alguém, pelo medo de fazer tudo dar errado, bem, eu não vou a lugar algum.

Os anos se passaram e eu já não sou mais o mesmo que escreveu sobre o pontinho vermelho em sua busca sem fim. Meus passos se tornaram mais firmes, sou mais dono de mim sem querer ser dono do que eu faço. Porque foi o que descobri: quanto mais tento controlar as coisas, mais elas fogem ao meu controle. E só eu sei como sou controlador, como sinto que preciso disso para viver em paz, mesmo que seja uma paz vigiada  e à beira de inúmeros conflitos. Agora tento me atirar aos conflitos e tirar deles o que conseguir, com o alcance que minhas mãos tem nesse momento de minha vida. Mas mudam os gestos, mudam os pensamentos, renovam-se os hábitos, só que essa parte de mim permanece a mesma.

Sou o maior covarde que conheço em relação ao amor. Fui capaz de permanecer afastado disso por muito mais de um ano apenas por não procurar uma forma de tentar reencontrá-lo - permaneci o tempo todo em minha zona de conforto, desconfortavelmente engasgado com a minha solidão. Caramba, por que precisa ser tão difícil e complicado para mim? Por que não consigo simplesmente tentar? A sensação que vem das tentativas sempre me desencorajam, me esfregando na cara a real falta de controle que é a realidade. E isso me faz pensar: estarei eu então vivendo uma falsa sensação de que realmente mudei, melhorei?

Seria mais fácil se eu não acordasse ou fosse dormir pensando sobre isso. Muito melhor se eu não olhasse para as pessoas a rua e depois fugisse delas. Se eu não possuísse a parede mais alta e não me colocasse fora do alcance de qualquer um... aí talvez eu tivesse uma chance. Porém não me sinto pronto, ou confortável. Me sinto... errado. Fora de lugar. Incapaz de fazer o que todo mundo consegue fazer. Não há um "final feliz" em minha história. Não há continuidade além da minha própria pele, que irá ganhar rugas com o passar dos anos.

Porque eu não quero enfrentar esse medo. Não sinto que consigo sozinho. Sei que preciso se realmente quiser resultados, mas simplesmente não consigo. É o pior de todos. É imperioso, sempre me abate como faz uma raposa a uma lebre indefesa. E é assim que me sinto.

Então talvez eu precise sempre tentar explicar isso para alguém, mesmo que nunca consiga pronunciar qualquer palavra convincente. E recebo olhares que comunicam sempre "você não consegue porque não quer". Serei feio demais? Estranho demais? Tenho as qualificações para viver romances? Aquela voz perfeccionista que me persegue desde a infância me responde prontamente um "NÃO!" quando estou prestes a me arriscar.

Um dia quero conseguir. Ainda não consigo, ainda nem consigo querer conseguir. É um entrave que segura toda a minha vida, um romantismo que envenena meu humor e meus objetivos mais reais, mais simples e necessários.

Sigo sozinho, mergulhado no mar cinzento. Não me importa mais a cor que emano, passo aos poucos a refletir as cores que se amontoam ao meu redor. Um dia, quem sabe, acordo e me descubro apaixonado por mim mesmo e assim não precisarei de mais ninguém.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ecos no vazio


Assisto as cenas inteiras como se não fizesse parte delas. Me sinto distante, à parte do que às vezes se passa ao meu redor. Acontece sempre que tento me desvencilhar das camadas que me cobrem, aquelas que são formadas pelos traços alheios que tento absorver e emular em mim como se eu fosse uma máquina. Não consigo entender o que estou sentindo, ou se sinto qualquer coisa de verdade, porque pairo sobre uma dúvida incolor, disforme e sem nome, que me deixa com uma profunda sensação de vazio. Se estou acompanhado, tento imediatamente simular uma emoção qualquer para que não percebam esse meu momento de vulnerabilidade - não daria para explicar isso na hora, seria complicado demais, desviaria a atenção demais de outros assuntos e ninguém precisa mesmo saber.

Mas serei eu um robô? Uma casca? Uma superfície que devolve ao mundo as emoções que captura de seus amigos? Na minha realidade a pessoa de quem mais desconfio sou eu mesmo, porque tudo parece ser muito mais real do que a minha presença. Às vezes sinto que em algum momento uma brisa passará e simplesmente me levará embora, porque não tenho uma âncora, uma forma que me mantenha devidamente preso ao chão, à realidade, à vida normal que eu não consigo abraçar completamente.

Há momentos em que sinto emoções genuínas, obviamente, ou então teria certeza de que não sou uma pessoa. Ou talvez só tivesse certezas, ou ausência total de dúvidas, o que definitivamente não se aplica ao meu caso. Mas o vazio que se estende dentro de mim não é triste ou melancólico. Tenho meus momentos. Só que é exatamente o que o nome afirma: vazio, oco. E é como me vejo, a despeito da profundidade que pareço emanar para aqueles que me conhecem, pelo modo como me comporto. Sou uma pessoa bem raza, com sentimentos bem razos, que possui esse senso de auto-crítica imperioso e que muito, muito dificilmente consegue relaxar.

O que há de errado com isso? Porque me sinto errado em ser como sou? Se estou insatisfeito, não preciso apenas mudar? Mas no que quero mudar exatamente? Dúvidas, dúvidas, mais caminhos para o escuro. Trilhei por muitos deles buscando fragmentos do que viria a ser esse eu que tanto procuro e, juntando as peças, pude fazer uma imagem geral de mim mesmo. Mas não consigo me livrar da sensação contínua de que tem algo errado comigo, de que não me encaixo no resto do mundo e de que em algum momento vou precisar deixar isso explodir, vir a tona e tomar a forma que desejar, mesmo que isso me leve à loucura ou ao isolamento total.

Porque a sensação de estar no centro é uma coisa que quero muito conhecer. Estive timidamente vivendo um papel de protagonista de minha vida nos últimos anos, mas estou muito mais acostumado a ser coadjuvante. E não me sinto orgulhoso disso, ou de minha capacidade de manipular as pessoas, prever as suas ações e planejar maneiras de me aproximar mais delas, de ganhar sua confiança e aplicar testes contínuos para me certificar de que provoco as impressões corretas. Porque é tudo fruto de covardia, tudo é o medo de saber o que eu realmente quero ser, ou como sou. É o mesmo medo que escancarou meu mundo para todos os lados e desviou a minha atenção para qualquer lugar, menos para mim mesmo. É o medo que me faz não confiar, não experimentar, não viver.

Talvez fosse por vergonha de ser como sou, ainda tenho vergonha de muitas coisas em mim até hoje. Talvez seja insegurança ou apenas respota aos estímulos que recebi enquanto crescia. Ou talvez eu seja mesmo uma pessoa estranha e não haja nada a se fazer a respeito. Não me importo com a origem, só quero me sentir bem comigo mesmo. Porque enquanto algumas pessoas travam sérias batalhas do lado de fora, trabalhando para realizar sonhos e avançar na vida, vivo um combate interno que me carrega cada vez mais para dentro, incapaz de realmente sentir gosto pelo que a maioria das pessoas parecem conhecer como "viver".

Vazio como um poço sem água. Vazio como uma embalagem, cheia de propagandas e promessas. Vazio por não saber quem sou eu instintivamente, como todo mundo ao meu redor parece saber, mesmo se perdendo de vez em quando. Parece que não construí alguma base muito importante no meu crescimento e isso é algo que vai me fazer falta pelo resto da vida, porque não aprendi na época em que deveria ter aprendido - estava ocupado demais fingindo já saber de tudo.

Um novo dia tráz novas promessas, novos afazeres e obrigações. Sou forçado a encarar a realidade aqui fora de um jeito ou de outro. Mas se meus olhos parecem focar o mundo, minha cabeça está mesmo em outro lugar.

O que devo sentir agora? Você pode me dizer?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Choque Divino


Venho escrever para mim mesmo e já me deparo duas sérias características que tendem a me fazer querer jogar tudo para cima: a ansiedade e a indecisão. A primeira me ataca com um milhão de ideias legais que provavelmente tentarei escrever aqui, só que com a vontade de cuspí-las todas ao mesmo tempo; a segunda vai ainda além, ao ponto de me congelar completamente com a dúvida "como devo começar isso?".

Sendo um ser perfeccionista, visualizo previamente toda a grandeza potencial no que decido fazer e espero criar algo que esteja plenamente de acordo com ela, nada menos. O problema das coisas perfeitas, porém, além de sua virtual inexistência, está no fato de já serem concebidas prontas, suficientes. Se é assim, como raios vou começar uma coisa, trabalhar nela até eliminar todos seus buracos de imperfeições e deixá-la perfeita? Entender que esse caminho simplesmente não existe é um dos meus maiores desafios, porque essa mesma dúvida funciona como uma pedra gigante repousada logo no início de qualquer estrada que resolvo tomar para realizar alguma coisa.

Tenho medo de começar novos jogos, veja só. Minha constante preocupação em absorver toda e cada informação que eles me passam muitas vezes transformou momentos que deveriam ser bons em fadiga extrema e desatenção. Quero terminá-los com uma medalha de ouro, e os mais marcantes e divertidos são aqueles em que resolvo simplesmente deixar isso de lado para aproveitá-los como puder, sem exigências. Falo disso porque esse é um comportamento obsessivo que repito em todos os aspectos de minha vida. E não falo de lutar com unhas e dentes para fazer algo perfeito, o que talvez viesse a ser até uma atitude louvável. Falo de me assustar com a realidade de que jamais serei capaz de realizar algo assim e deixar essa verdade exercer tamanho poder sobre mim que desisto antes de começar. Ou pouco depois de ter dado os primeiros passos, como aconteceu com uma terrível quantidade de projetos criativos que deixei órfãos. Isso é um porre.

Acredito que ter crescido acostumado ao pensamento constante de que deveria ser uma pessoa perfeita para ser aceito tem bastante a ver com tudo isso. Mas o engraçado é que, ao meu ver infantil, ser perfeito era possuir a capacidade mágica de sempre agradar as pessoas, ser gentil, razoavelmente inteligente para ser respeitado por elas e jamais, jamais incomodá-las. Dessa forma eu nunca seria rejeitado, não haveria qualquer razão plausível para isso (mas aconteceu uma milhão de vezes, obviamente). Meu ponto é que nada disso foi algum dia sobre eu "realizar" nada, então pouco me questionei sobre meus sonhos ou como pretendia lutar por eles. Fui aprender que o poder e o dever para isso pertenciam unicamente a mim mesmo muito tempo depois.

Então, nessa noite de reflexão e pouco sono, em que começo escrevendo livremente e acabo deixando de lado todos os pensamentos legais anteriores para discutir uma coisa totalmente nova, me pego desejando ser diferente. Há coisas que aprendi e que fui esquecendo por não praticá-las - e que me fazem uma falta danada, percebo agora. Mais uma vez a indecisão me segura, pergunta aos meus ouvidos se não irei estragar o texto ao continuar escrevendo-o, ou deixá-lo demasiado triste, ou longo, ou num tom de auto piedade muito grande. Não estou nem aí, ao menos desse penhasco criativo eu sinto ter o direito de me jogar nesse momento. E não parar até chegar ao chão.

O que tem me feito falta nesses últimos dias são as minhas sessões de terapia. Não só porque elas me ajudaram um bocado, me fizeram me reinventar, ou melhor, me conhecer de verdade. É mais pelo fato de aquele psicólogo ser inteligente demais! E não aquele tipo chato de inteligência, que jorra sobre você como uma cachoeira incessante e cheia de informações que nem sempre lhe interessam. Não isso, mas uma inteligência sagaz, simples, segura de si, cheia de significados e com poucas palavras. Uma pergunta dele era o suficiente para me desarmar completamente e me fazer questionar coisas que nem sabia que existia. Ele ensinou tanta coisa legal, como o fato de haver em nós uma presença superior e inexplicável, quem somos de verdade, uma divindade infinita em nossa finitude.

Sei bem como isso pode soar, então me deixe explicar melhor: todos nós temos algo chamado "Ego" e a sua função é nos manter constantemente sob controle, moldar nossos desejos e sentimentos para que se encaixem em cada situação que enfrentamos. Ele é a máscara que utilizamos em nossa vida, pela qual tentamos convergir características que serão entendidas pelos outros como sendo "nós". O problema do Ego é que ele tem fortes tendências megalomaníacas e às vezes passa a acreditar que ele é, de fato, quem somos e nos fazem pensar a mesma coisa. Dessa forma, aquela pessoa que conseguimos construir, com tais defeitos, tais qualidades e tais objetivos para enfrentarmos o dia-a-dia, passa a dar as ordens.

Só que o Ego é frágil e costuma se despedaçar completamente ao ser colocado frente a uma situação incômoda e improvável. Quem nunca desejou morrer ou sumir por em algum momento não ter tido a força necessária para dar uma boa resposta merecida? Ou mudar o rumo da sua vida? Ou por não ter tentado viver aquele amor que tanto desejava? O Ego está imbuído de características fixas, forjado em dureza, portanto não pode ser flexível e se adaptar para nos ajudar a resolver todo tipo de problema. Ele não pode aplicar a coragem que acreditamos possuir para lidar com certos assuntos em toda e qualquer situação. E digo isso porque é em nossas fraquezas e medos que o Ego se desfaz. E o que sobra disso? O desespero. "Por que eu não consigo? O que há de errado comigo?", dentre outros pensamentos venenosos.

E onde entra a divindade que somos nisso tudo? Esse é um conceito que vem do hinduísmo, se não me engano, e é algo com que me identifiquei bastante.

Pausa para uma nova indecisão. Engraçado, parece que toda vez em que a cito é como se a olhasse como um pai olha para seu filho ao pegá-lo fazendo algo que não devia. E então ela se encolhe, oprimida pela minha reprovação. Menina má. Prosseguindo...

A "divindade" que habita em nós seria quem realmente somos em toda nossa essência: esse imenso oceano de sentimentos controversos e coexistentes, desejos e possibilidades infinitas. E ao entrarmos em contato com o mundo, numa certa ocasião, numa certa sociedade, com suas certas regras e que exija de nós um certo posicionamento, fazemos as águas desse oceano escoarem através de um complexo funil, que lhes dá a forma de "ação", nossa ação (ou reação).

Compreender que somos esse poço infinito em constante mudança nos ensina a sermos mais pacientes com nossos defeitos e remorsos, porque sabemos que por pior que as coisas possam estar, ainda somos nós mesmos, únicos e insubstituíveis, capazes de experienciar e interpretar o que ninguém mais pode. É como o ponto máximo da nossa honestidade com nós mesmos. E ao aceitarmos essa verdade, nos tornamos flexíveis e resistentes às constantes mortes pelas quais o Ego tem que passar. Porque é assim que as coisas são, ele surge apenas como faces que utilizamos em cada situação para interagirmos com o mundo nos sentindo bem naquele contexto. Então é plenamente normal que se desfaçam continuamente, pois nunca serão suficientes para lidarmos com tudo que nos acontece e nem podem evitar os problemas. Afinal eles são apenas pequenas partes de nós e a sua morte não nos torna menos presentes e reais, pois somos muito mais profundos e verdadeiros do que eles. E assim como acontece dentro de nós, devemos aceitar também o mundo que nos cerca, com todas as suas imperfeições e sofrimentos que simplesmente não podemos evitar.

Não acho que seja necessário nos ver exatamente como "divindades", claro, basta apenas entender que não há necessidade de sermos outra existência e nem viver com o medo constante da mudança e do sofrimento. O que me faz gostar mais dessa teoria, porém, são aqueles momentos em que sinto que estou sendo completamente eu mesmo. Não falo do fato de me sentir plenamente confortável em minha própria pele, o que também é maravilhoso e nem sempre possível. Mas alguém já sentiu aquela sensação engraçada como um arrepio, uma onda de choque poderosa e indescritível quando estamos "realizando" alguma coisa? Comigo aconteceu algumas vezes, uma quando dava um conselho realmente bom, outras enquanto compunha músicas que me escancaravam emocionalmente, outras cantando em sintonia perfeita com meus sentimentos, outras desenhando... Não foram tantas assim. Mas é um momento único em que você tem a sensação de que está fazendo exatamente o que deveria fazer, o que gosta de fazer e isso te deixa feliz. É como se houvesse uma inteligência muito superior agindo através de você naquele instante e que te faz perguntar depois “nossa, eu fiz isso mesmo?”. Não sei se consegui ser claro nessa descrição, mas é por ser realmente difícil de colocar em palavras. Só que, para mim, isso é um contato inegável com o meu verdadeiro eu, aquele eu que esse mundo vive tentando e consegue soterrar todos os dias. Talvez seja um momento do mais puro êxtase, ausência total de medo ou insegurança.

Infelizmente, esses raros choques divinos duram segundos apenas e logo volto ao mundo cheio de defeitos. Contudo, a sensação de realização não pode ser negada e foi justamente ela que me peguei desejando outro dia. Pensei "queria fazer alguma coisa de que realmente orgulhasse, que me fizesse me sentir útil e realizado". Talvez dessa forma pudesse estar cada vez mais próximo da minha "divindade" interior e, cada vez mais, trazê-la para minha vida de maneira consciente e verdadeira, livre do controle que o medo me faz querer exercer sobre tudo a meu redor. Assim, eu poderia não abrir mão da minha costumeira melancolia, mas aceitá-la como parte essencial de minha existência incompleta e vivê-la sabendo que serei feliz depois dela, porque quero ser feliz. Aceitar as dificuldades me dá o poder de contorná-las; aceitar meus medos, motivos para enfrentá-los. E assim por diante.

E é nesse horizonte que quero vislumbrar a minha vida, uma vida em que a ansiedade não me roube o foco e a já tão conhecida indecisão não tire de mim o sabor de lutar por meus sonhos.

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe é Deus aos olhos da criança

Seja por serem nossa via de entrada na vida, seja por terem nos carregado no colo e perdido noites seguidas de sono para cuidar de nós, seja passarem a dedicar parte de tudo que fazem para nossa sobreviência e felicidade, existe um elo entre mães e filhos que vai além de qualquer explicação. É claro que há mães e mães, assim como há todo tipo diferente de gente. Talvez nem todas as mulheres estejam prontas para a responsabilidade que o papel traz, ou sequer interessadas em viver esse lado da vida. Outras, por forças do destino, se vêem cortadas do convívio com seus filhos, incapazes de lhes prover o amor que lhes seria natural. Mas a vida é assim mesmo, a sorte possui caminhos incertos de se manifestar na existência de cada um.

Mas de uma coisa eu estou certo: apenas uma outra pessoa nesse mundo tem a grande sorte de ter a mãe que eu tenho. Crescer envolve tantas experiências, grandes ou pequenas, mas que nos transformam continuamente. E é crescendo que aprendemos como devemos lidar com as situações,  as pessoas, o que é necessário destruir ou respeitar. E, para isso, voltamos nossos olhos para nossas casas, o lugar a que pertencemos primariamente, onde vivem aqueles que nos apresentam aos poucos o que é viver e que acabam por servir de modelos mais importantes para os seres humanos que nos tornamos no futuro.

E minha mãe, nisso tudo? O primeiro exemplo que aprendi com ela, acredito, foi o da honestidade. Viver uma vida dígna, ser uma pessoa honrada e não ver sentido em burlar regras apenas para me dar bem, porque posso conseguir tudo de que preciso tentando ser uma boa pessoa. Essa foi a primeira lição, sem dúvidas, e a partir dela outras foram se construíndo, conforme ela e eu íamos crescendo juntos. Algumas inseguranças eu não soube repartir ou colocar em palavras, mas no fundo eu sabia que ela as conhecia da mesma maneira muda que eu. E essa era minha casa, aqueles braços que me abraçavam eram meu verdadeiro lar. Não conheço amor mais profundo em mim, mais... verdadeiro, quase palpável, do que o que sinto por minha mãe.

Mas a história definitivamente não pára quando estamos adultos. Sinto que tive a oportunidade de ensinar muitas coisas a ela e quero continuar fazendo isso sempre, porque trocar experiências com uma mulher tão extraordinária não tem preço. A senhora pode fazer birra quando falo das outras mães, mas eu bem sei como é dividir uma pessoa tão incrível com tantos outros filhos, mesmo não tendo parentesco algum com eles. Porque é assim que você é. E, nossa, isso é realmente uma coisa que me faz te admirar cada vez mais: suas atitudes possuem uma base simples, um objetivo definido, uma trajetória direta e que partem de quem você realmente é, pura e simplesmente. Seu coração caridoso e forte já foi o abrigo para tantas almas perdidas que, quando olho para sua história, me pergunto se algum dia serei capaz de fazer metade do que a senhora já fez.

Uma mulher linda, radiante, inteligente, esperta, um tanto intrometida, mas comprometida com o que há de bom no mundo: é assim que te vejo, mãe. E sou muito grato por ter tido essa sorte imensa de ter saído de seu ventre, ser chamado de "filho" e ainda por cima acabar me tornando seu amigo. Te amo mais que tudo nesse mundo, Deus sabe, mesmo no meu jeito torto ou desajeitado de demonstrar às vezes.

"Mãe é Deus aos olhos da criança". Esse é o maior elogio que consigo fazer a você.

Feliz dia das mães! Desse seu filho, SEU filho, e de nenhuma outra mãe!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ação & Reação

É engraçado ver o impacto de minhas atitudes sobre as outras pessoas. Percebo a leitura que fazem de mim, às vezes uma próxima do que desejo, às vezes infinitamente distante da realidade. E é assim que vivemos nesse mundo, meio que mergulhados numa solução que a todo tempo propaga nossas escolhas como ondas, direcionadas ou não, mas que se transformam ao longo do caminho em consequências diversas e que se desenrolarão para todo o sempre. Assim, somos também consequências, talvez da primeira atitude tomada pela primeira pessoa quando ela decidiu que iria viver.

Às vezes sou o senhor de minhas ações e reações, estou em minha zona de conforto e consigo sentí-las com clareza, aproveitá-las sem temor, sejam elas boas ou ruins. Em outros momentos, contudo, me falta a segurança para aceitá-las e me sobra vontade de controlá-las, mesmo que num esforço inútil, pois elas são fruto do que há de mais natural e primitivo em mim. E, incapaz de me sentir a vontade ou até corajoso para conhecer as consequências delas, me retraio como faz um caramujo ao ser ameaçado, se expremendo para dentro da concha que carrega em suas costas.

Ontem fiz algo assim. Tive a oportunidade de aprender algo novo, conversar e me soltar, me colocar a prova e, quem sabe, conseguir os melhores resultados para aquele momento. Mas estraguei tudo quando entrei na minha casa das costas. Ali, todos os meus antigos medos e minhas dúvidas eternas me esperavam para me fazer companhia, enquanto aperto os olhos, incapaz de olhar para o que há lá fora.

A verdade é que nem todos os discursos do mundo me fizeram aprender ainda o que há de belo e verdadeiro dentro de mim, ou como aceitar tudo isso. As falhas criadas durante o meu crescimento se espalham como grandes cicatrizes que custam a se fechar, me fazendo duvidar de mim mesmo muito mais do que é considerado saudável. Sinto um ímpeto enorme de me encaixar, de satisfazer padrões, de ser mais "normal", mesmo que por um momento, para garantir que eu seja aceito e não vá ficar sozinho. Sempre tive essa necessidade imperiosa de ser perfeitamente agradável, sensível e estar atento para gerar as reações que eu desejava nas pessoas. Mas isso tudo, na prática, nunca funcionou nem um pouquinho. E, ainda assim, parece que é o único jeito que conheço de viver...

Queria conseguir me jogar desse penhasco de uma vez, ao invés de ficar sempre olhando da beirada, espreitando a felicidade alheia e me perguntando quando meu tempo vai chegar. Sou um poço de possibilidades infinitas e cheio de vontades, só que limitado por válvulas de auto-crítica que regulam com crueldade aonde meus flúidos irão percorrer. Quando me desligar disso serei uma pessoa mais feliz? Existe esse botão de "liga/desliga"? Alguém pode me mostrar onde aperto, por favor?

Uma vida estressante e vivida no limite - seja ele o da ação constante ou o da não mudança eterna - tende a gerar reações igualmente desmedidas, numa tentativa de romper com essa realidade contínua e opressora. A cadeia de eventos que segue a partir disso pode ser desastrosa... pode ser brilhante... pode ser qualquer coisa. Mas essa realidade ainda vive e irá se regenerar aos poucos, pois enquanto respiramos ela também respira através de nós. É impossível nos livrarmos desse fardo... e não são todos que conseguem vê-lo de uma maneira diferente.

Enfim... é só mais uma angústia dentre tantas, entrelaçada com todas as outras e formando o ser humano que vos digita, mesmo que para não mais ser lido por ninguém. Enquanto continuo estragando minhas chances e esperando que me esbofeteiem e me façam parar de ser idiota, continuo vivendo e, felizmente, aprendendo a me divertir com o que a vida me oferece, até mesmo com minhas próprias atitudes ridículas.

Porque somos todos ridículos, no final das contas. Uns mais, outros menos. Uns num padrão, outros fora dele. Uns confortáveis com a ridicularidade, outros enclausurados por ela. Mas todos, todos ridículos. Em um momento ou outro.

E quando penso que tudo vai mudar, vejo que me sentei pra descansar um pouco. E quando sento para descansar... É só pra assistir tudo caindo mais uma vez.