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sábado, 29 de setembro de 2018

No meio do caminho tinha uma Mirela

Tinha uma Mirela no meio do caminho.

Tudo começou como o começo muitas vezes pode ser: inseguro, indistinto, incerto, infinito em suas possibilidades. Então vieram as pequenas explosões, os desconfortos compartilhados, o momento em que as rachaduras começaram a se criar. O que se fazer quando não se sabe o que fazer nesses momentos? O que dizer quando não se sabe ainda que palavras existem para conduzir um rio de águas correntes para uma direção distinta? Isso sequer é possível?

Então as pequenas explosões se acumularam. Cresceram de dentro para fora com as experiências vividas, com os não ditos acumulados, com os tantos braços que o rio abriu com sua força inexorável de imprevisibilidade. Até um grande bum! E estava feito. Rompeu-se, quebrou-se e já não se havia mais vontade de remendar.

E tinha uma Mirela no meio no caminho.

O rio correu para o mar. As águas do tempo passaram, trazendo com elas todos os tipos de oportunidades, de novidades, de dores e novas dificuldades. As cicatrizes permaneciam ali, para sempre cutucadas, para sempre incapazes de serem totalmente curadas. E, em meio aos puxões de duas forças contrárias, um coração se permitiu ser dilacerado centenas de vezes.

E ali, bem no meio dele, tinha uma Mirela.

Nada é mais importante do que essa Mirela. Então por que ela fez os outro acreditarem que poderiam sê-lo?

Nada é mais forte do que essa Mirela. Então por que ela abaixou a sua cabeça, ofereceu o lombo e carregou os pedregulhos da explosão como se lhe pertencessem?

Nada é maior do que essa Mirela. Então por que ela se faz tão e tão pequena?

Não puxei o gatilho. Não dei o primeiro passo. Não construí relações que não são minhas. Não invadi a mente das pessoas e as convenci a serem o que são e a escolherem o que escolhem. Então por que estou pagando por isso se a culpa não me pertence?

É porque me fazem passar por isso? Ou é porque eu mesma que escolhi? Como se escolhe não viver e reviver esse mesmo papel?

Tudo que queria era ter paz. Um relacionamento em paz. Uma amizade em paz. Sonhar com essa possibilidade me alimentou a alma por anos. E todas as tentativas me levaram à frustração de ser incapaz de controlar as águas, as explosões e o curso das coisas.

No meio do caminho tem uma Mirela e às vezes parece que ninguém liga para isso. "Nossos medos, nossas dúvidas e nossos orgulhos são deveras importantes. Que ela permaneça onde está, onde escolheu estar".

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Através do sofrimento pude olhar para dentro de mim mesma num nível muito profundo, bem naquela parte aonde habitam a minha vergonha, o meu medo, a minha necessidade de controlar tudo. Estou criada pelo medo, mas sou filha do desejo. Para além de tudo que me deixa sem ação, para além da possibilidade de ser rejeitada, de não ser reconhecida, de não ser boa o suficiente, existe um imenso desejo de ser eu mesma!

Eu simplesmente não sei o que fazer, o que falar, como me mostrar, que outras ferramentas utilizar para passar a minha verdade. Não tenho a prática de traduzi-la para ninguém em momentos de crise, aqueles que exigem mais de nós, que nos desnudam e testam tudo que achamos que conhecemos da vida. Repito hábitos, me prendo a um ciclo de ser culpada o tempo todo, como se a única forma de permanecer na vida das pessoas fosse sendo o que elas esperam que eu seja, mesmo que com alguma folga para ser um pouco de quem eu sou.

Onde está minha coragem? Só surge quando há sabedoria? Só vem à tona quando eu sei o que fazer?

Estou perdida, mas tenho uma família, amigos e um parceiro que me amam. Não sei o que fazer, mas tenho um lar, um emprego, meios para me encontrar. Estou sozinha, mas na melhor companhia.

Então preciso aceitar esse momento como ele é. Preciso aceitar meu coração como ele está. Preciso me ver, me sentir, me enxergar. Sozinha, sem o aval de ninguém. Sozinha, eu mesma, Mirela.

Estou cansada de ouvir conselhos. Estou cansada de abaixar a cabeça para tudo que querem me dizer, para toda a cobrança que estou acostumada a receber, a tudo que eu crio em mim mesma e projeto para receber como eco dos outros. Estou cansada de ser a vítima subserviente, a heroína que se sacrifica, aquela que sente que não pode fazer escolhas por conta própria.

Tem um caminho, mas nele não tem uma Mirela.

Porque ele é ela. E Mirela é o caminho.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Ele ou Ela?

Hoje comecei o meu dia como o de costume: acordar cedo, me preparar para sair e ir trabalhar, enfrentar o imenso desconforto que é estar na presença de outros seres humanos enquanto utilizo o metrô ou caminho na rua. Tudo estava bem normal mesmo. Mas hoje foi um dia em que acordei com uma sombra negra pairando sobre mim. Não porque algum acontecimento do dia anterior tivesse provocado isso ou algo assim. Era apenas... um dia ruim. Um dia sem confiança própria. Dos mesmos medos, das mesmas dúvidas, das mesmas angústias. Da mesma raiva de saber que continuo podendo sentir essas coisas, que não as superei completamente.

Mas esse novo desabafo não é para contar sobre o meu dia. Porque ele foi o início, mas transcorreu sem nenhum problema particularmente importante e eu ainda consegui me sentir bem ao longo dele. Só que, no caminho de casa, me vieram pensamentos íntimos e dos quais eu sempre tive muita vergonha de falar a respeito com qualquer um. E, com eles, questionamentos, possíveis respostas e mais perguntas.

Desde criança eu soube que não era e nem queria ser como os outros meninos. E eu nem queria ser menino. Pra quê? Homens, com sua força, sua liberdade, suas atitudes quase que automaticamente justificadas por serem o que são. Homens, destinados à liderança da família, a serem capazes de puxar brigas para defender a própria honra, a falar grosso e se impor. Homens, sentando de pernas abertas, tirando suas camisas, exercendo todo o seu direito à masculinidade inerente. Tudo isso sempre me foi absurdamente estranho, quase como se eu fosse um extraterrestre. Porque, obviamente, eu também não era mulher.

Fui criado em um ambiente e em uma época em que o pensamento "binário" imperava com uma firmeza muito maior. Havia: bem e mal; branco e preto; certo e errado; homem e mulher. Eu não fui ensinado a realmente questionar as áreas "cinzas" desses extremos, a ver que uma coisa tinha muito da outra dentro de si e isso era apenas natural. Então esse pensamento dualista se enraizou dentro de mim profundamente e gera frutos até hoje.

Daí me veio o primeiro choque: nasci homem, mas não queria ser homem. Queria ter nascido mulher. Porém não havia nascido mulher, então para mim não seria possível ter o carinho e o cuidado que as mulheres ao meu redor pareciam receber. Não teria a vantagem de fazer parte do grupo das meninas populares da escola junto com minhas primas, trocar segredos, estudar juntas, conquistar os garotos. Não poderia ser parte desse universo, dessa realidade. E jamais encontraria o amor, porque eu ainda não sabia que dois homens também podem ter um relacionamento. Era como viver mergulhado num misto constante de humilhação, inveja e frustração. Por não ser nem como elas e nem querer ser como eles. Por me sentir não sendo ninguém exatamente, apenas um engano, um erro. E por nem sequer imaginar que haveria uma forma de poder ser "eu".

É claro que eu estava completamente alienado em relação às dificuldades e imensas injustiças com as quais as mulheres em geral precisam lidar ao longo da vida, dado o nosso histórico patriarcal e criminoso com elas. E, ainda assim, hoje fui tomado por esse sentimento novamente: queria ter nascido mulher. "Por que?", me pergunto eu. Por que ser mulher?

Seria uma fuga? O que seria, de fato, melhor?

Sempre admirei e invejei as mulheres. Sempre gostei e acho que gostarei das personagens femininas, sejam de jogos, filmes, livros, não importa. Busquei me aproximar e me identificar com elas antes de qualquer coisa. Porque elas eram tão legais! Corajosas, lutadoras, heroínas, independentes e, ainda assim, mulheres. E tinham também a atenção e o desejo dos homens. Eram a epítome da perfeição na minha visão infantil. Então era mais ou menos assim que eu via o fato de ser "mulher". Toda mulher sempre foi superior a mim por ter nascido da forma correta e, assim, poder exercer essa existência com suas particularidades de gênero.

Ser homem... sempre me meu muito medo. Porque eu via os homens ao meu redor sendo ensinados a se comportar como homens: com sua brutalidade, virilidade, evitando a delicadeza. "Não sente desse jeito, não faça isso, não é coisa de homem". Perdi a conta da quantidade de coisas que ouvi durante toda a minha vida e que secretamente alimentaram uma sensação de contínua inadequação dentro de mim. Nunca quis me portar estritamente como o padrão masculino manda, não me dava prazer algum. Quis me distanciar disso o quanto pude e com toda a pouca coragem que conseguia reunir. Sempre fui feminino, minha voz não engrossou tanto como as dos rapazes normalmente engrossam, passei uma imensa parcela da vida me recusando terminantemente a ficar sem camisa e mais uma série de outros comportamentos peculiares. Sentar de pernas abertas? Não, não mesmo.

E, como que por uma ironia da vida, minha barba não demorou a crescer. E depois veio uma verdadeira enxurrada de pelos por todo o corpo. E aí cresci, cresci muito e fiquei com pés enormes. A testosterona parecia trabalhar a todo vapor, independente da minha vontade. Cada uma dessas coisas era um motivo de vergonha para mim. Era como me afastar mais e mais do meu ideal, das minhas heroínas, da menina que vivia dentro de mim. Da minha própria alma.

Acho que é aí que entra o papel da dicotomia na minha criação: como não tinha ouvido algo como "está tudo bem em você ser como é, você tem o direito de ser feliz e de realizar os seus sonhos, inclusive o de amar e ser amado", creio que posso ter assumido dentro de mim a identidade de gênero que se encaixava com o meu desejo por pessoas do mesmo sexo, quase como sendo uma forma de compensação. Me via como menina. Em silêncio, em segredo, minha maior vergonha e meu maior tesouro. Olhava para os meninos e tinha muito prazer em reconhecer as diferenças entre nós, isso me deixava intimamente seguro e reafirmado de certa forma, mesmo com todo sofrimento e bullying que isso me gerou ao longo da vida.

Mas é como levar uma vida inteira na periferia de si mesmo, incapaz de se voltar para dentro e descobrir o que te faz forte, o que dá medo, o que se quer fazer da vida. É como estar sempre no limiar entre o "quero que as pessoas saibam e me respeitem como sou" e o "ninguém jamais pode saber disso, porque é errado". É estar paralisado e deixar a vida correr ao seu redor, como uma pedra que não se move com o correr das águas.

Hoje, tenho um relacionamento com um homem e não precisei mudar de sexo para isso. Um homem que conhece esse segredo e me amou ainda assim. Hoje aprendi a ler melhor as "áreas cinzas". E descobri que, se ainda quero ser mulher, é porque já sou uma mulher. Sou uma mulher dentro do corpo de um homem, com todos os seus traços característicos. Meu sexo físico muitas vezes pesa sobre mim como uma pedra, por vir imbuído de toda uma carga do que é esperado socialmente que eu faça - ter mais força, carregar mais pesos, passar mais segurança às pessoas, etc. Quando, na verdade, eu só quero fluir. Quero ser eu e me orgulhar disso.

Queria poder gritar essa verdade para os quatro ventos. Queria que as pessoas enxergassem essa minha realidade e a respeitassem para que eu me sentisse seguro para ser quem eu sou. E queria não sentir que preciso do aval de outras pessoas para exercer minha existência, mesmo as desconhecidas. Queria não ficar analisando doentiamente todo e qualquer outro ser humano para saber o quão diferentes somos em questões de gênero. Queria me sentir tão confortável quanto um homem ou uma mulher que cabem dentro da própria pele e não precisam passar por esses questionamentos. Uma pessoa CIS.

Porque não sou CIS. Não sou uma metade da laranja, nem descendente de Adão. Sou uma mistura, numa loucura de gritos e cores sem fim.

Sou mulher, mesmo sendo homem. Prefiro ser mulher, mas hoje aceito ser homem. Sou tanto ele quanto ela. E onde eu puder exercer essa minha existência em completude, assim o farei.

Que eu tenha coragem.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A ilha

Não saberia dizer o que fiz de minha vida. Esse ano completarei 26 anos. Fiz faculdade, trabalhei em dois lugares diferentes, tive minha parcela de amores e desamores, mesmo que muito breves. Mas me sinto fincado num buraco, incapaz de ir adiante. Odeio meu trabalho, odeio o pouco dinheiro que ele me paga, odeio querer fazer tantas coisas e não saber por onde começar. Queria tanto, mas tanto mudar a minha vida e começar a lutar para ser feliz, só que parece que desaprendi a fazer isso. Me vejo caindo cada vez mais rápido naquela vidinha adulta que eu sempre temia: um emprego meia-boca, que me rouba muitas horas por dia, para chegar em casa e não me sentir apto a fazer mais nada de produtivo. Cresci. Sou um adulto agora. Vivo como um adulto, pago contas como um adulto. Tenho dívidas crescentes como um adulto. Um adulto incompleto, perdido e bastante infeliz.

Talvez seria melhor se eu fosse uma pessoa que não ligasse pra isso, que não se desse ao trabalho de gerar esse tipo de raciocínio, porque aí aceitaria tudo que me acontece e pronto, poderia até ser feliz. Eu... sei, ou ao menos tento saber, da minha responsabilidade pela situação atual de minha vida. Querer ir adiante é diferente de agir pra ir adiante, e não ando agindo muito. Os dias passam, viram meses, que já viraram mais dois anos de pura insatisfação. Como eu não soube aproveitar bem a minha faculdade e grande parte das oportunidades que me apareceram, me vejo agora irremediavelmente perdido diante de um mundo que só quer saber de me devorar. E eu, que sempre fui aquela criança assustada, escondida no meu canto, com medo de ser colocada à prova algum dia... Me sinto plenamente despreparado para sequer abrir a minha boca e dizer "tenho um sonho para realizar".

Sinto tanta dor ao me sentar na cadeira do trabalho, tanta dor ao me forçar a sorrir e a servir essas pessoas a quem pouco consigo respeitar. O ódio cresce dentro de mim, parece que estou afundando dentro dele. Mas nada muda. Houve uma época em minha vida em que as decisões importantes foram tomadas pelo destino e eu apenas era carregado pela correnteza. Hoje essa correnteza me empurra em direção a uma queda mortal e só me resta me proteger em uma "ilha segura" ou nadar para chegar mais longe.

Parece que a vida adulta é exatamente isso: um rio de águas violentas e cruéis. E nossos empregos ou as formas que encontramos de nos sustentar são essas ilhas, espalhadas no caminho. Uns conseguem construir embarcações, através das experiências e de seus investimentos, e passam a desafiar as águas muito mais bravamente. Outros, como eu, desaprendem a nadar e ficam numa mesma ilha, deprimidos e sonhando com espaços maiores e melhores, onde poderiam ser felizes. Minha confiança, meu crescimento, minha aparente inteligência: de nada isso vale frente à correnteza. Porque não sei fazer valer, não sei viver essa vida e reluto muito em aprender.

Fico parado, engasgado, travado no tempo enquanto o resto do mundo gira em sua indiferença à minha dor. Queria chorar, mas não consigo. E os entretenimentos que encontro me servem de analgésicos, os quais me impedem de me tornar uma pessoa totalmente amarga e cruel.

Queria que minha vida mudasse... Queria que alguém pudesse fazer isso por mim. Queria achar uma fórmula mágica para isso. E queria não ter que passar por essas coisas. Mas queria, também, ser mais forte, para justamente passar por essas coisas e sair vitorioso. Queria mudar a minha vida eu mesmo, me sentir orgulhoso de minhas conquistas, de meus pertences, do que eu posso fazer. Queria... Estar satisfeito.

No escritório, o pequeno rádio ligado corta o silêncio com suas canções que nada me dizem. A mesma sinfonia de teclas e telefonemas faz sua performance, enquanto os funcionários realizam suas coreografias ao som dessa música bizarra.

E eu, com os olhos fechados, rezo para que mais um dia nessa ilha acabe logo.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Um céu não tão egoísta

As nuvens estão passando, posso vê-las se perdendo além do limite do horizonte. Hoje há bastante azul naquele céu cinzento, que insistia em lançar pesadas tempestades sobre minha cabeça, muitas vezes me fazendo esquecer da existência da luz, do sol.

É bom poder reler coisas que escrevi e sentir que são passado. Como era uma pessoa diferente, com uma compreensão totalmente diferente da realidade e de minha participação nela.

Acredito que o caminho que escolhi não deve ter fim: mergulho cada vez mais fundo dentro de minha própria consciência, buscando localizar e compreender as razões de meus medos. Mas talvez tenha aprendido uma das lições mais valiosas na vida: não há de se combater coisas ruins com outras coisas ruins, ou elas apenas irão se proliferar em maior número como resultado final. Pelo contrário, aprendi a tentar compreender, aceitar e até gostar, em alguns casos.

Ao céu cabe carregar as nuvens e ao vento soprá-las para onde lhe convir. Eu, mortal e cheio de dúvidas, assisto e realizo o espetáculo de viver, para que a chuva ou o sol me completem um após o outro. Até o dia em que eu também vire vapor, vire uma nuvem, viaje pelo mundo e venha a chover em algum outro lugar.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A Encruzilhada - "Dois, três, cinco, seis"

Estava numa encruzilhada. Passara por caudalosos rios de lava, poços venenosos e por sombras de memórias assombrosas que havia ignorado por toda a sua vida para chegar justamente àquele local, onde o caminho parecia finalmente começar. Viam-se placas espalhadas para todos os lados, cada uma apontando numa direção aleatória, com palavras pouco esclarecedoras sobre o que viria depois delas além do próprio futuro. E era para o futuro que ele acabaria seguindo, de um jeito ou de outro.

O sol faiscava lá no alto num céu de nuvens finas e transparentes, num dia quente, mas não daqueles que nos fazem ficar muito suados ou incomodados. Era um calor constante, que o fazia lembrar da realidade de sua existência, por vezes tão efêmera, mas não o levava a procurar por uma sombra para se proteger. Não naquele momento, ao menos, em que os caminhos se abriam e se costuravam feito malhas trançadas em frente ao seus olhos, descrevendo curvas complexas uns sobre os outros, meio que para dizer que mesmo sendo diferentes poderiam acabar levando a destinos similares.

E lá estava ele, tendo de tomar uma decisão. Nunca fora realmente bom nisso, talvez pelo seu signo astral, talvez por sua natureza própria. Costumava se deixar levar pelo mundo e fazê-lo decidir em seu lugar, quando já não havia mais jeito. Perdera a conta das vezes em que só entrara em ação quando não tinha mais tempo, quando não podia parar para pensar e escolher com cuidado. Porque escolher significava, ao mesmo tempo, aceitar uma coisa e negar outra. É sempre assim, não se pode ter tudo. Mas isso sempre foi algo muito difícil para o menino aceitar.

Era um menino desajeitado, todo torto, todo errado, mas cheio de curiosidade. Tinha um constante ar de mistério, um olhar escorregadio, de quem escondia mais do que falava. Caminhava timidamente, como se duvidasse do direito que possuía de dar cada novo passo - e talvez andasse para trás caso lhe dissessem que não o tinha, que estava errado. Seu medo de errar era seu pior defeito, o fazia querer esticar seu pescoço para alcançar a visão das aves para assistir a vida de cima e estudá-la, porém sem nunca realmente participar dela.

E mesmo sendo esse menino, lá estava ele. Era um momento divino e igualmente aterrador aquele, o de tomar a decisão e arcar com as consequências dela. Como medida de segurança, tentara enviar cartas para alguns dos caminhos, aguardando respostas que lhe esclareceriam mais sobre o que deveria fazer. Mesmo que fosse apenas um subterfúgio para adiar a sua responsabilidade sobre si mesmo, ele não se importava. Estava sendo como poderia ser, fazendo o que poderia fazer, tudo em seu próprio tempo, contrariando o tempo do mundo.

E aguardava as respostas... Umas vieram, outras demoraram. E ele ainda esperava. Talvez tivesse muito mais medo do "sim" do que do "não" - o segundo encerrava o assunto e lhe libertava, ainda que tristemente, mas o primeiro era uma promessa de futuro incerto e cheio de armadilhas para suas fraquezas. Só que, novamente, não podia mais estar no controle, com a cabeça lá no alto. Precisava e gostaria de errar.

Mas até quando poderia esperar? Até quando merecia adiar a sua escolha? Mesmo que ninguém lhe respondesse, ele sabia a resposta dentro de si. O momento estava chegando, não por uma força da natureza que vinha de fora como já lhe acontecera, mas como uma força emocional que brotava de sua vontade. Não é que não pudesse mais esperar, é que ele já não queria mais tanto assim. A carta não vinha, talvez nunca viesse, mesmo que a tivesse enviado corajosamente. Não estava em seu poder fazê-la ser respondida. Outros caminhos, igualmente incertos e especiais se estendiam adiante, ele sabia disso, e tudo que queria era poder seguir por um deles sem sentir culpa por ter deixado o outro para trás.

Talvez o tempo não fosse aquele, talvez adiante achasse um atalho que o levasse de volta para aquele caminho sem resposta. Mas ele não podia viver contando com isso, não mais. Não para viver pela metade, pois é muito mais difícil trilhar uma estrada quando se anda sobre um pé só. Respirou fundo e decidiu arriscar: deu o primeiro passo. As placas tremeram com o vento, como se ele cantasse ao soprar por entre suas superfícies metálicas e brilhantes contra o sol. E de repente o silêncio absoluto, ansioso pelo som do próximo pé sobre o próximo pedaço de chão. E aquela indecisão, e aquela indecisão.

Mais um passo. Dois, três, cinco, seis. O caminho se abria conforme se aproximava, formando uma estrada cada vez mais larga, como que se dilatando para aceitar a responsabilidade de recebê-lo. Os demais, contudo, sumiam de vista, transformando-se em vultos indistintos, nem distantes e nem próximos, mas presentes até aquele momento. Voltar para começar de novo era sempre uma opção, disso o menino sabia. E mesmo que a sua vida dependesse daquela escolha, bem, a sua vida não dependia exatamente daquela escolha, sabem. Ela era muito maior do que aquele simples momento, que o levaria a outras encruzilhadas do destino. Ela era infinita em sua finitude, se estendia para além de qualquer estrada ou horizonte.

E foi pensando nisso que ele decidiu ir em frente, sorrindo consigo mesmo e só podendo esperar pelo melhor. Queria rir quando quisesse rir ou chorar quando fosse necessário. E sabia que, independente de para onde aquele caminho o levasse, ele finalmente poderia se sentir como não se sentira antes: vivo.

As dúvidas não se calaram, os medos não adormeceram. A dor não cedeu, nem o rancor morreu. Mas tudo era uma música que lhe soava aos ouvidos como uma trilha sonora perfeita de sua história. E a alegria era o sol, brilhando com uma esperança implacável sobre sua cabeça.

Por aquele e por muitos e muitos outros dias...

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Um Lugar Desperdiçado

O veneno que corre em minhas veias a cada dia ameaça parar meu coração. Ele corre e se espalha por entre cada célula, lançando gritos de terror, de paranoia, de incompreensão. Inunda meus olhos, turva minha percepção, me faz querer correr quando mal consigo levantar as pernas. Me faz ver cada um na rua como meu inimigo em potencial, como se estivessem prestes a me fazer algum mal. Como se eu merecesse esse mal, como se eu devesse esperar por ele o tempo inteiro e estar preparado. Mas por que?

Suas gotas não são negras ou esverdeadas - ele circula na cor do meu sangue, completamente disfarçado. Faz firulas e não pára exatamente em um lugar. Às vezes parece se esconder em minhas mãos, deixando-as trêmulas e desajeitadas; ou em minhas pernas, provocando os tão conhecidos escorregões e pequenos acidentes. E é nesse meio tempo que eu acredito que posso ser uma alma livre, me dedicar a encontrar algo de que gosto e me divertir, sentir o tempo e o vento passarem por mim como se não fossem grande coisa. Mas logo ele sobe direto para a minha cabeça e jorra seus jatos pungentes em meu cérebro, me infectando com as verdades obscuras que carrego desde que me entendo por gente.

Aí me pego querendo saber quem me injetou esse veneno. Foram meus pais? Por seus erros em suas tentativas para criar essa criança estranha, silenciosa, muito auto-crítica e nada auto-confiante? Porque, como vejo hoje e como os conheço, eles não poderiam ter feito melhor. Não naquela época, não com aquelas cabeças. E, mesmo assim, eles fizeram e fazem sempre o melhor que podem. Então como dizer que o veneno veio deles?

Então, veio das outras pessoas que me cercavam? Não me sentia à vontade ou seguro em lugar algum, jamais poderia abaixar minha guarda para deixar ninguém, ninguém se aproximar. Como se pudessem descobrir o motivo pelo qual eu não deveria existir nesse mundo e mandassem me apagar por completo. Como se eu já soubesse em meu interior que não deveria estar entre essas pessoas, causando-lhes pequenos problemas, lançando gritos sufocados de socorro que quase nunca eram ouvidos e assumiam a forma de atitudes estranhas, súbitas e de difícil compreensão.

Quando paro para pensar, vejo duas fortes vontades lutando dentro de mim: a vontade de sumir, de virar vapor, de assumir a forma ideal para uma pessoa que sente que não deveria existir, de deixar esse tal segredo tenebroso - que até eu desconheço - vir a tona e acabar com toda e qualquer relação possivelmente positiva que eu possua; e a vontade de viver, de continuar existindo. Não sei dizer exatamente porque quero continuar existindo, talvez esteja apenas acostumado a existir e não queira abrir mão disso. Mas existir dói demais, cansa demais, não sei se isso é para mim.

Falando assim, poderia soar como se eu tivesse alguma doença sem cura, ou fosse maltratado todos os dias, ou como se minha vida estivesse qualquer coisa próxima às daquelas pessoas que nem sabem se terão o que comer amanhã. Só que mesmo tendo casa, comida, roupas, algum dinheiro, conforto, família  - tudo que deveria fazer uma pessoa se sentir, no mínimo, satisfeita -, me sinto infeliz. E não é culpa de mais ninguém além de mim mesmo. E saber do tamanho ínfimo que tem os meu problemas se for comparar com, sei lá, os sem teto ou os jovens que são forçados a entrar para o tráfico, isso realmente só me deixa pior comigo mesmo. Porque é algo que eu não deveria sentir, que as pessoas que eu conheço não parecem sentir. Mas sinto mesmo assim.

Esse veneno fui eu quem injetou. Comecei desde cedo, me sentindo forçado pelas situações, pelas pessoas, sem nunca decidir tomar um caminho diferente. Fui viciando nele. Me tornei oco, obsoleto, disforme e fraco. Cresci em tamanho e só aumentei a minha superfície, mas guardei bem fundo todas as explosões que aconteciam a todo o momento. Porque eu sempre estive e estou com tanto medo...

E venho resolver isso através de um texto, cuspindo palavras escolhidas com cuidado para que tentem passar o real significado da dor que esse veneno provoca. Talvez esperando por palavras milagrosas, por um apoio sobrenatural de alguém que o drene para fora de mim. Esperando de alguém a responsabilidade que deve ser só minha. Hoje, pela primeira vez, pensei em me machucar de verdade, como se isso fosse resolver alguma coisa, e isso realmente me preocupa. Jamais farei nada contra minha vida, porque nem meus pais e nem meus amigos merecem isso. Mas viver como eu vivo... não sei se é viver de verdade.

Melhor engasgar, contudo, do que jogar veneno contra os outros. Porque, diferente de mim, eles tem uma vida para viver, uma vida preciosa e cheia de problemas diversos, que demandam atenção. Não gosto de ser um buraco negro que suga a luz alheia, especialmente quando sou rodeado por tantos seres luminosos. Gostaria de brilhar um dia também, mas nem dessa luz eu me sinto digno em alguns momentos.

Que coisa maluca, acreditar com tanta veemência que não mereço ser feliz. Quase como saber disso, como se a cada curva da vida essa informação me fosse ensinada e reafirmada. Talvez outra vida em meu lugar se saísse infinitamente melhor e tivesse mais coragem para se entregar aos seus desejos e fazer de sua própria felicidade seu foco central. Mas essa vida não sou eu... Ainda, pelo menos. A negatividade brota de minha alma como ervas daninhas e fungos maliciosos, ansiosos por devorarem uma floresta que teria solo, luz e água para crescer e brilhar ao sol.

É como um lugar desperdiçado.

domingo, 24 de março de 2013

As palavras querem sair

Elas querem sair. Me sento, me levanto, caminho entre os cômodos da casa. Olho em torno, vejo as paredes brancas, as portas abertas, as janelas da rua. E as palavras querem sair de mim. Como se estivessem engasgadas aqui dentro por tempo demais, como se lutassem por entre minhas cordas vocais, se espremendo para ganharem liberdade, elas sobem como um vomito necessário. Sobem e querem sair de mim, deixar minhas entranhas, deixar minha boca e saltar língua a fora.

Mas não sei dizer que palavras são essas ou se apenas me recuso com veemência a olhá-las. São poderosas, querem ribombar como um trovão, marcar o início do controle próprio das rédeas de minha vida. São palavras de libertação, gritos contra o desespero e contra a angústia, contra o medo em si. Palavras que sequer pretendem formar frases com sentido ou serem compreendidas por quaisquer outras formas de vida. Não, elas querem me acertar com seus punhos verbais, enfiando em mim o bom senso de que tanto preciso para lidar com os meus problemas mais recorrentes. Elas querem derrubar meus óculos e me fazerem ver o mundo como ele é pela primeira vez. Querem romper as paredes, fazer ruir todo o meu castelo e me colocar em meio à balbúrdia que é viver em um mundo como o nosso.

Porque elas sabem que sou capaz de sobreviver a isso. Elas sabem e querem sair. Não querem sair como palavras, aquelas que irão se propagar pelo ar e sumir em seguida. Elas querem sair e tomar novas formas, modificar o que conheço de mim e das outras pessoas. Querem virar estímulo, ação, atitude. Querem romper todo limite que impus a mim mesmo em todos esses anos de existência.

Engasgo, passo mal, rolo na cama e espero passar. E não passa, a sensação cresce, ao passo em que não sei se posso ou se devo realmente gritar para o mundo o que quero gritar. Penso no tanto que quis fazer e não fiz, ou no tanto que fiz e nunca mostrei a ninguém. Tudo que é meu e que é belo, mas que por ser meu perdeu o valor de beleza para mim. As palavras querem sair. Elas vem saindo, como um parto feito às pressas, como o nascimento de um novo ser que já veio velho ao mundo. Não consigo segurá-las! Mas não é que eu queira mesmo segurá-las - quero vê-las jorrar pelo universo!

A razão não é mais parede forte para deixá-las reprimidas - emoção é tudo que sou, tudo que consigo ser. E deixo jorrar, jorrar, jorrar palavras. Todo meu vocabulário escapando de minha garganta até não haver mais voz no meu corpo. Jorram luz e escuridão, jorra o que é preciso para se viver nessa vida. Me torno um ponto brilhante no mundo, um novo foco atuante, uma nova possibilidade divina. As palavras saíram de mim.

Saíram para anunciar o começo da época da coragem. Saíram para desmascarar o culpado, para afagar o inocente. Saíram para que eu soubesse que, contra todas as possibilidades, ainda estou vivo.

E eu, agora oco e sem mais palavras, me posiciono na largada.

Porque a corrida para minha vida vai começar.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Admito: sozinho não dá


Até onde se estende a minha incapacidade de me colocar à prova? Me sinto sempre acorrentado à minha imperfeição inata, aquela da qual jamais conseguirei me livrar, na qual eu gasto esforços enormes e infrutíferos - tudo para, um dia, ter coragem e experimentar. O que? A vida, o que as pessoas normais experimentam o tempo todo. O amor, aquele que vem de todo tipo, tamanho, cor e forma; aquele que tem traços únicos e surge de uma troca de olhar, de um movimento corajoso, de uma atitude. Mas, com uma consciência quase palpável de que não há como eu ser amado por muito tempo por alguém, pelo medo de fazer tudo dar errado, bem, eu não vou a lugar algum.

Os anos se passaram e eu já não sou mais o mesmo que escreveu sobre o pontinho vermelho em sua busca sem fim. Meus passos se tornaram mais firmes, sou mais dono de mim sem querer ser dono do que eu faço. Porque foi o que descobri: quanto mais tento controlar as coisas, mais elas fogem ao meu controle. E só eu sei como sou controlador, como sinto que preciso disso para viver em paz, mesmo que seja uma paz vigiada  e à beira de inúmeros conflitos. Agora tento me atirar aos conflitos e tirar deles o que conseguir, com o alcance que minhas mãos tem nesse momento de minha vida. Mas mudam os gestos, mudam os pensamentos, renovam-se os hábitos, só que essa parte de mim permanece a mesma.

Sou o maior covarde que conheço em relação ao amor. Fui capaz de permanecer afastado disso por muito mais de um ano apenas por não procurar uma forma de tentar reencontrá-lo - permaneci o tempo todo em minha zona de conforto, desconfortavelmente engasgado com a minha solidão. Caramba, por que precisa ser tão difícil e complicado para mim? Por que não consigo simplesmente tentar? A sensação que vem das tentativas sempre me desencorajam, me esfregando na cara a real falta de controle que é a realidade. E isso me faz pensar: estarei eu então vivendo uma falsa sensação de que realmente mudei, melhorei?

Seria mais fácil se eu não acordasse ou fosse dormir pensando sobre isso. Muito melhor se eu não olhasse para as pessoas a rua e depois fugisse delas. Se eu não possuísse a parede mais alta e não me colocasse fora do alcance de qualquer um... aí talvez eu tivesse uma chance. Porém não me sinto pronto, ou confortável. Me sinto... errado. Fora de lugar. Incapaz de fazer o que todo mundo consegue fazer. Não há um "final feliz" em minha história. Não há continuidade além da minha própria pele, que irá ganhar rugas com o passar dos anos.

Porque eu não quero enfrentar esse medo. Não sinto que consigo sozinho. Sei que preciso se realmente quiser resultados, mas simplesmente não consigo. É o pior de todos. É imperioso, sempre me abate como faz uma raposa a uma lebre indefesa. E é assim que me sinto.

Então talvez eu precise sempre tentar explicar isso para alguém, mesmo que nunca consiga pronunciar qualquer palavra convincente. E recebo olhares que comunicam sempre "você não consegue porque não quer". Serei feio demais? Estranho demais? Tenho as qualificações para viver romances? Aquela voz perfeccionista que me persegue desde a infância me responde prontamente um "NÃO!" quando estou prestes a me arriscar.

Um dia quero conseguir. Ainda não consigo, ainda nem consigo querer conseguir. É um entrave que segura toda a minha vida, um romantismo que envenena meu humor e meus objetivos mais reais, mais simples e necessários.

Sigo sozinho, mergulhado no mar cinzento. Não me importa mais a cor que emano, passo aos poucos a refletir as cores que se amontoam ao meu redor. Um dia, quem sabe, acordo e me descubro apaixonado por mim mesmo e assim não precisarei de mais ninguém.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ecos no vazio


Assisto as cenas inteiras como se não fizesse parte delas. Me sinto distante, à parte do que às vezes se passa ao meu redor. Acontece sempre que tento me desvencilhar das camadas que me cobrem, aquelas que são formadas pelos traços alheios que tento absorver e emular em mim como se eu fosse uma máquina. Não consigo entender o que estou sentindo, ou se sinto qualquer coisa de verdade, porque pairo sobre uma dúvida incolor, disforme e sem nome, que me deixa com uma profunda sensação de vazio. Se estou acompanhado, tento imediatamente simular uma emoção qualquer para que não percebam esse meu momento de vulnerabilidade - não daria para explicar isso na hora, seria complicado demais, desviaria a atenção demais de outros assuntos e ninguém precisa mesmo saber.

Mas serei eu um robô? Uma casca? Uma superfície que devolve ao mundo as emoções que captura de seus amigos? Na minha realidade a pessoa de quem mais desconfio sou eu mesmo, porque tudo parece ser muito mais real do que a minha presença. Às vezes sinto que em algum momento uma brisa passará e simplesmente me levará embora, porque não tenho uma âncora, uma forma que me mantenha devidamente preso ao chão, à realidade, à vida normal que eu não consigo abraçar completamente.

Há momentos em que sinto emoções genuínas, obviamente, ou então teria certeza de que não sou uma pessoa. Ou talvez só tivesse certezas, ou ausência total de dúvidas, o que definitivamente não se aplica ao meu caso. Mas o vazio que se estende dentro de mim não é triste ou melancólico. Tenho meus momentos. Só que é exatamente o que o nome afirma: vazio, oco. E é como me vejo, a despeito da profundidade que pareço emanar para aqueles que me conhecem, pelo modo como me comporto. Sou uma pessoa bem raza, com sentimentos bem razos, que possui esse senso de auto-crítica imperioso e que muito, muito dificilmente consegue relaxar.

O que há de errado com isso? Porque me sinto errado em ser como sou? Se estou insatisfeito, não preciso apenas mudar? Mas no que quero mudar exatamente? Dúvidas, dúvidas, mais caminhos para o escuro. Trilhei por muitos deles buscando fragmentos do que viria a ser esse eu que tanto procuro e, juntando as peças, pude fazer uma imagem geral de mim mesmo. Mas não consigo me livrar da sensação contínua de que tem algo errado comigo, de que não me encaixo no resto do mundo e de que em algum momento vou precisar deixar isso explodir, vir a tona e tomar a forma que desejar, mesmo que isso me leve à loucura ou ao isolamento total.

Porque a sensação de estar no centro é uma coisa que quero muito conhecer. Estive timidamente vivendo um papel de protagonista de minha vida nos últimos anos, mas estou muito mais acostumado a ser coadjuvante. E não me sinto orgulhoso disso, ou de minha capacidade de manipular as pessoas, prever as suas ações e planejar maneiras de me aproximar mais delas, de ganhar sua confiança e aplicar testes contínuos para me certificar de que provoco as impressões corretas. Porque é tudo fruto de covardia, tudo é o medo de saber o que eu realmente quero ser, ou como sou. É o mesmo medo que escancarou meu mundo para todos os lados e desviou a minha atenção para qualquer lugar, menos para mim mesmo. É o medo que me faz não confiar, não experimentar, não viver.

Talvez fosse por vergonha de ser como sou, ainda tenho vergonha de muitas coisas em mim até hoje. Talvez seja insegurança ou apenas respota aos estímulos que recebi enquanto crescia. Ou talvez eu seja mesmo uma pessoa estranha e não haja nada a se fazer a respeito. Não me importo com a origem, só quero me sentir bem comigo mesmo. Porque enquanto algumas pessoas travam sérias batalhas do lado de fora, trabalhando para realizar sonhos e avançar na vida, vivo um combate interno que me carrega cada vez mais para dentro, incapaz de realmente sentir gosto pelo que a maioria das pessoas parecem conhecer como "viver".

Vazio como um poço sem água. Vazio como uma embalagem, cheia de propagandas e promessas. Vazio por não saber quem sou eu instintivamente, como todo mundo ao meu redor parece saber, mesmo se perdendo de vez em quando. Parece que não construí alguma base muito importante no meu crescimento e isso é algo que vai me fazer falta pelo resto da vida, porque não aprendi na época em que deveria ter aprendido - estava ocupado demais fingindo já saber de tudo.

Um novo dia tráz novas promessas, novos afazeres e obrigações. Sou forçado a encarar a realidade aqui fora de um jeito ou de outro. Mas se meus olhos parecem focar o mundo, minha cabeça está mesmo em outro lugar.

O que devo sentir agora? Você pode me dizer?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Choque Divino


Venho escrever para mim mesmo e já me deparo duas sérias características que tendem a me fazer querer jogar tudo para cima: a ansiedade e a indecisão. A primeira me ataca com um milhão de ideias legais que provavelmente tentarei escrever aqui, só que com a vontade de cuspí-las todas ao mesmo tempo; a segunda vai ainda além, ao ponto de me congelar completamente com a dúvida "como devo começar isso?".

Sendo um ser perfeccionista, visualizo previamente toda a grandeza potencial no que decido fazer e espero criar algo que esteja plenamente de acordo com ela, nada menos. O problema das coisas perfeitas, porém, além de sua virtual inexistência, está no fato de já serem concebidas prontas, suficientes. Se é assim, como raios vou começar uma coisa, trabalhar nela até eliminar todos seus buracos de imperfeições e deixá-la perfeita? Entender que esse caminho simplesmente não existe é um dos meus maiores desafios, porque essa mesma dúvida funciona como uma pedra gigante repousada logo no início de qualquer estrada que resolvo tomar para realizar alguma coisa.

Tenho medo de começar novos jogos, veja só. Minha constante preocupação em absorver toda e cada informação que eles me passam muitas vezes transformou momentos que deveriam ser bons em fadiga extrema e desatenção. Quero terminá-los com uma medalha de ouro, e os mais marcantes e divertidos são aqueles em que resolvo simplesmente deixar isso de lado para aproveitá-los como puder, sem exigências. Falo disso porque esse é um comportamento obsessivo que repito em todos os aspectos de minha vida. E não falo de lutar com unhas e dentes para fazer algo perfeito, o que talvez viesse a ser até uma atitude louvável. Falo de me assustar com a realidade de que jamais serei capaz de realizar algo assim e deixar essa verdade exercer tamanho poder sobre mim que desisto antes de começar. Ou pouco depois de ter dado os primeiros passos, como aconteceu com uma terrível quantidade de projetos criativos que deixei órfãos. Isso é um porre.

Acredito que ter crescido acostumado ao pensamento constante de que deveria ser uma pessoa perfeita para ser aceito tem bastante a ver com tudo isso. Mas o engraçado é que, ao meu ver infantil, ser perfeito era possuir a capacidade mágica de sempre agradar as pessoas, ser gentil, razoavelmente inteligente para ser respeitado por elas e jamais, jamais incomodá-las. Dessa forma eu nunca seria rejeitado, não haveria qualquer razão plausível para isso (mas aconteceu uma milhão de vezes, obviamente). Meu ponto é que nada disso foi algum dia sobre eu "realizar" nada, então pouco me questionei sobre meus sonhos ou como pretendia lutar por eles. Fui aprender que o poder e o dever para isso pertenciam unicamente a mim mesmo muito tempo depois.

Então, nessa noite de reflexão e pouco sono, em que começo escrevendo livremente e acabo deixando de lado todos os pensamentos legais anteriores para discutir uma coisa totalmente nova, me pego desejando ser diferente. Há coisas que aprendi e que fui esquecendo por não praticá-las - e que me fazem uma falta danada, percebo agora. Mais uma vez a indecisão me segura, pergunta aos meus ouvidos se não irei estragar o texto ao continuar escrevendo-o, ou deixá-lo demasiado triste, ou longo, ou num tom de auto piedade muito grande. Não estou nem aí, ao menos desse penhasco criativo eu sinto ter o direito de me jogar nesse momento. E não parar até chegar ao chão.

O que tem me feito falta nesses últimos dias são as minhas sessões de terapia. Não só porque elas me ajudaram um bocado, me fizeram me reinventar, ou melhor, me conhecer de verdade. É mais pelo fato de aquele psicólogo ser inteligente demais! E não aquele tipo chato de inteligência, que jorra sobre você como uma cachoeira incessante e cheia de informações que nem sempre lhe interessam. Não isso, mas uma inteligência sagaz, simples, segura de si, cheia de significados e com poucas palavras. Uma pergunta dele era o suficiente para me desarmar completamente e me fazer questionar coisas que nem sabia que existia. Ele ensinou tanta coisa legal, como o fato de haver em nós uma presença superior e inexplicável, quem somos de verdade, uma divindade infinita em nossa finitude.

Sei bem como isso pode soar, então me deixe explicar melhor: todos nós temos algo chamado "Ego" e a sua função é nos manter constantemente sob controle, moldar nossos desejos e sentimentos para que se encaixem em cada situação que enfrentamos. Ele é a máscara que utilizamos em nossa vida, pela qual tentamos convergir características que serão entendidas pelos outros como sendo "nós". O problema do Ego é que ele tem fortes tendências megalomaníacas e às vezes passa a acreditar que ele é, de fato, quem somos e nos fazem pensar a mesma coisa. Dessa forma, aquela pessoa que conseguimos construir, com tais defeitos, tais qualidades e tais objetivos para enfrentarmos o dia-a-dia, passa a dar as ordens.

Só que o Ego é frágil e costuma se despedaçar completamente ao ser colocado frente a uma situação incômoda e improvável. Quem nunca desejou morrer ou sumir por em algum momento não ter tido a força necessária para dar uma boa resposta merecida? Ou mudar o rumo da sua vida? Ou por não ter tentado viver aquele amor que tanto desejava? O Ego está imbuído de características fixas, forjado em dureza, portanto não pode ser flexível e se adaptar para nos ajudar a resolver todo tipo de problema. Ele não pode aplicar a coragem que acreditamos possuir para lidar com certos assuntos em toda e qualquer situação. E digo isso porque é em nossas fraquezas e medos que o Ego se desfaz. E o que sobra disso? O desespero. "Por que eu não consigo? O que há de errado comigo?", dentre outros pensamentos venenosos.

E onde entra a divindade que somos nisso tudo? Esse é um conceito que vem do hinduísmo, se não me engano, e é algo com que me identifiquei bastante.

Pausa para uma nova indecisão. Engraçado, parece que toda vez em que a cito é como se a olhasse como um pai olha para seu filho ao pegá-lo fazendo algo que não devia. E então ela se encolhe, oprimida pela minha reprovação. Menina má. Prosseguindo...

A "divindade" que habita em nós seria quem realmente somos em toda nossa essência: esse imenso oceano de sentimentos controversos e coexistentes, desejos e possibilidades infinitas. E ao entrarmos em contato com o mundo, numa certa ocasião, numa certa sociedade, com suas certas regras e que exija de nós um certo posicionamento, fazemos as águas desse oceano escoarem através de um complexo funil, que lhes dá a forma de "ação", nossa ação (ou reação).

Compreender que somos esse poço infinito em constante mudança nos ensina a sermos mais pacientes com nossos defeitos e remorsos, porque sabemos que por pior que as coisas possam estar, ainda somos nós mesmos, únicos e insubstituíveis, capazes de experienciar e interpretar o que ninguém mais pode. É como o ponto máximo da nossa honestidade com nós mesmos. E ao aceitarmos essa verdade, nos tornamos flexíveis e resistentes às constantes mortes pelas quais o Ego tem que passar. Porque é assim que as coisas são, ele surge apenas como faces que utilizamos em cada situação para interagirmos com o mundo nos sentindo bem naquele contexto. Então é plenamente normal que se desfaçam continuamente, pois nunca serão suficientes para lidarmos com tudo que nos acontece e nem podem evitar os problemas. Afinal eles são apenas pequenas partes de nós e a sua morte não nos torna menos presentes e reais, pois somos muito mais profundos e verdadeiros do que eles. E assim como acontece dentro de nós, devemos aceitar também o mundo que nos cerca, com todas as suas imperfeições e sofrimentos que simplesmente não podemos evitar.

Não acho que seja necessário nos ver exatamente como "divindades", claro, basta apenas entender que não há necessidade de sermos outra existência e nem viver com o medo constante da mudança e do sofrimento. O que me faz gostar mais dessa teoria, porém, são aqueles momentos em que sinto que estou sendo completamente eu mesmo. Não falo do fato de me sentir plenamente confortável em minha própria pele, o que também é maravilhoso e nem sempre possível. Mas alguém já sentiu aquela sensação engraçada como um arrepio, uma onda de choque poderosa e indescritível quando estamos "realizando" alguma coisa? Comigo aconteceu algumas vezes, uma quando dava um conselho realmente bom, outras enquanto compunha músicas que me escancaravam emocionalmente, outras cantando em sintonia perfeita com meus sentimentos, outras desenhando... Não foram tantas assim. Mas é um momento único em que você tem a sensação de que está fazendo exatamente o que deveria fazer, o que gosta de fazer e isso te deixa feliz. É como se houvesse uma inteligência muito superior agindo através de você naquele instante e que te faz perguntar depois “nossa, eu fiz isso mesmo?”. Não sei se consegui ser claro nessa descrição, mas é por ser realmente difícil de colocar em palavras. Só que, para mim, isso é um contato inegável com o meu verdadeiro eu, aquele eu que esse mundo vive tentando e consegue soterrar todos os dias. Talvez seja um momento do mais puro êxtase, ausência total de medo ou insegurança.

Infelizmente, esses raros choques divinos duram segundos apenas e logo volto ao mundo cheio de defeitos. Contudo, a sensação de realização não pode ser negada e foi justamente ela que me peguei desejando outro dia. Pensei "queria fazer alguma coisa de que realmente orgulhasse, que me fizesse me sentir útil e realizado". Talvez dessa forma pudesse estar cada vez mais próximo da minha "divindade" interior e, cada vez mais, trazê-la para minha vida de maneira consciente e verdadeira, livre do controle que o medo me faz querer exercer sobre tudo a meu redor. Assim, eu poderia não abrir mão da minha costumeira melancolia, mas aceitá-la como parte essencial de minha existência incompleta e vivê-la sabendo que serei feliz depois dela, porque quero ser feliz. Aceitar as dificuldades me dá o poder de contorná-las; aceitar meus medos, motivos para enfrentá-los. E assim por diante.

E é nesse horizonte que quero vislumbrar a minha vida, uma vida em que a ansiedade não me roube o foco e a já tão conhecida indecisão não tire de mim o sabor de lutar por meus sonhos.

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe é Deus aos olhos da criança

Seja por serem nossa via de entrada na vida, seja por terem nos carregado no colo e perdido noites seguidas de sono para cuidar de nós, seja passarem a dedicar parte de tudo que fazem para nossa sobreviência e felicidade, existe um elo entre mães e filhos que vai além de qualquer explicação. É claro que há mães e mães, assim como há todo tipo diferente de gente. Talvez nem todas as mulheres estejam prontas para a responsabilidade que o papel traz, ou sequer interessadas em viver esse lado da vida. Outras, por forças do destino, se vêem cortadas do convívio com seus filhos, incapazes de lhes prover o amor que lhes seria natural. Mas a vida é assim mesmo, a sorte possui caminhos incertos de se manifestar na existência de cada um.

Mas de uma coisa eu estou certo: apenas uma outra pessoa nesse mundo tem a grande sorte de ter a mãe que eu tenho. Crescer envolve tantas experiências, grandes ou pequenas, mas que nos transformam continuamente. E é crescendo que aprendemos como devemos lidar com as situações,  as pessoas, o que é necessário destruir ou respeitar. E, para isso, voltamos nossos olhos para nossas casas, o lugar a que pertencemos primariamente, onde vivem aqueles que nos apresentam aos poucos o que é viver e que acabam por servir de modelos mais importantes para os seres humanos que nos tornamos no futuro.

E minha mãe, nisso tudo? O primeiro exemplo que aprendi com ela, acredito, foi o da honestidade. Viver uma vida dígna, ser uma pessoa honrada e não ver sentido em burlar regras apenas para me dar bem, porque posso conseguir tudo de que preciso tentando ser uma boa pessoa. Essa foi a primeira lição, sem dúvidas, e a partir dela outras foram se construíndo, conforme ela e eu íamos crescendo juntos. Algumas inseguranças eu não soube repartir ou colocar em palavras, mas no fundo eu sabia que ela as conhecia da mesma maneira muda que eu. E essa era minha casa, aqueles braços que me abraçavam eram meu verdadeiro lar. Não conheço amor mais profundo em mim, mais... verdadeiro, quase palpável, do que o que sinto por minha mãe.

Mas a história definitivamente não pára quando estamos adultos. Sinto que tive a oportunidade de ensinar muitas coisas a ela e quero continuar fazendo isso sempre, porque trocar experiências com uma mulher tão extraordinária não tem preço. A senhora pode fazer birra quando falo das outras mães, mas eu bem sei como é dividir uma pessoa tão incrível com tantos outros filhos, mesmo não tendo parentesco algum com eles. Porque é assim que você é. E, nossa, isso é realmente uma coisa que me faz te admirar cada vez mais: suas atitudes possuem uma base simples, um objetivo definido, uma trajetória direta e que partem de quem você realmente é, pura e simplesmente. Seu coração caridoso e forte já foi o abrigo para tantas almas perdidas que, quando olho para sua história, me pergunto se algum dia serei capaz de fazer metade do que a senhora já fez.

Uma mulher linda, radiante, inteligente, esperta, um tanto intrometida, mas comprometida com o que há de bom no mundo: é assim que te vejo, mãe. E sou muito grato por ter tido essa sorte imensa de ter saído de seu ventre, ser chamado de "filho" e ainda por cima acabar me tornando seu amigo. Te amo mais que tudo nesse mundo, Deus sabe, mesmo no meu jeito torto ou desajeitado de demonstrar às vezes.

"Mãe é Deus aos olhos da criança". Esse é o maior elogio que consigo fazer a você.

Feliz dia das mães! Desse seu filho, SEU filho, e de nenhuma outra mãe!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ação & Reação

É engraçado ver o impacto de minhas atitudes sobre as outras pessoas. Percebo a leitura que fazem de mim, às vezes uma próxima do que desejo, às vezes infinitamente distante da realidade. E é assim que vivemos nesse mundo, meio que mergulhados numa solução que a todo tempo propaga nossas escolhas como ondas, direcionadas ou não, mas que se transformam ao longo do caminho em consequências diversas e que se desenrolarão para todo o sempre. Assim, somos também consequências, talvez da primeira atitude tomada pela primeira pessoa quando ela decidiu que iria viver.

Às vezes sou o senhor de minhas ações e reações, estou em minha zona de conforto e consigo sentí-las com clareza, aproveitá-las sem temor, sejam elas boas ou ruins. Em outros momentos, contudo, me falta a segurança para aceitá-las e me sobra vontade de controlá-las, mesmo que num esforço inútil, pois elas são fruto do que há de mais natural e primitivo em mim. E, incapaz de me sentir a vontade ou até corajoso para conhecer as consequências delas, me retraio como faz um caramujo ao ser ameaçado, se expremendo para dentro da concha que carrega em suas costas.

Ontem fiz algo assim. Tive a oportunidade de aprender algo novo, conversar e me soltar, me colocar a prova e, quem sabe, conseguir os melhores resultados para aquele momento. Mas estraguei tudo quando entrei na minha casa das costas. Ali, todos os meus antigos medos e minhas dúvidas eternas me esperavam para me fazer companhia, enquanto aperto os olhos, incapaz de olhar para o que há lá fora.

A verdade é que nem todos os discursos do mundo me fizeram aprender ainda o que há de belo e verdadeiro dentro de mim, ou como aceitar tudo isso. As falhas criadas durante o meu crescimento se espalham como grandes cicatrizes que custam a se fechar, me fazendo duvidar de mim mesmo muito mais do que é considerado saudável. Sinto um ímpeto enorme de me encaixar, de satisfazer padrões, de ser mais "normal", mesmo que por um momento, para garantir que eu seja aceito e não vá ficar sozinho. Sempre tive essa necessidade imperiosa de ser perfeitamente agradável, sensível e estar atento para gerar as reações que eu desejava nas pessoas. Mas isso tudo, na prática, nunca funcionou nem um pouquinho. E, ainda assim, parece que é o único jeito que conheço de viver...

Queria conseguir me jogar desse penhasco de uma vez, ao invés de ficar sempre olhando da beirada, espreitando a felicidade alheia e me perguntando quando meu tempo vai chegar. Sou um poço de possibilidades infinitas e cheio de vontades, só que limitado por válvulas de auto-crítica que regulam com crueldade aonde meus flúidos irão percorrer. Quando me desligar disso serei uma pessoa mais feliz? Existe esse botão de "liga/desliga"? Alguém pode me mostrar onde aperto, por favor?

Uma vida estressante e vivida no limite - seja ele o da ação constante ou o da não mudança eterna - tende a gerar reações igualmente desmedidas, numa tentativa de romper com essa realidade contínua e opressora. A cadeia de eventos que segue a partir disso pode ser desastrosa... pode ser brilhante... pode ser qualquer coisa. Mas essa realidade ainda vive e irá se regenerar aos poucos, pois enquanto respiramos ela também respira através de nós. É impossível nos livrarmos desse fardo... e não são todos que conseguem vê-lo de uma maneira diferente.

Enfim... é só mais uma angústia dentre tantas, entrelaçada com todas as outras e formando o ser humano que vos digita, mesmo que para não mais ser lido por ninguém. Enquanto continuo estragando minhas chances e esperando que me esbofeteiem e me façam parar de ser idiota, continuo vivendo e, felizmente, aprendendo a me divertir com o que a vida me oferece, até mesmo com minhas próprias atitudes ridículas.

Porque somos todos ridículos, no final das contas. Uns mais, outros menos. Uns num padrão, outros fora dele. Uns confortáveis com a ridicularidade, outros enclausurados por ela. Mas todos, todos ridículos. Em um momento ou outro.

E quando penso que tudo vai mudar, vejo que me sentei pra descansar um pouco. E quando sento para descansar... É só pra assistir tudo caindo mais uma vez.

sábado, 24 de março de 2012

Angústia sem nome

Às vezes reclamo tanto, muito mais internamente que externamente, sobre como é ruim estar sozinho. Já em outros momentos sinto algum alívio por justamente não ter ninguém. Ou sinto que é assim que tem que ser mesmo. Ou sinto uma imensa injustiça, uma ironia, uma piada sem graça. E tento tirar alguma graça disso parar continuar sorrindo com sinceridade, como tem sido difícil de fazer.

Cada um de nós deve possuir uma sensação de mundo muito particular, mesmo que por vezes estejamos acostumados a colocá-la para fora por palavras já usadas por outros (ou assim deve ser, não sei de verdade porque só conheço as minhas sensações de verdade). E existem aqueles momentos de minha vida em que não vejo sentido... em nada. Não é só pelo mundo e pelas pessoas em que nele habitam me frustrarem constantemente, até porque muitas delas fazem exatamente o contrário em minha vida e acabam virando força para eu ir adiante - seja lá para onde for. Só que... em alguns momentos fico tentando entender o que raios é essa minha existência, num esforço inútil e infrutífero. Uma coisa tão vã, tão dispensável para qualquer um que não seja eu mesmo, pois cada um de nós tem sua própria vida.

Mas... mas... me sinto tão vazio. Oco. Uma rachadura provocada por dúvidas incessantes que me perseguem desde que aprendi a respirar. E agora gasto minhas palavras tentando, talvez, fazer algum sentido para mim mesmo, só que incapaz de dizer até onde elas irão me levar. Porque há algo de primitivo que me falta, bem lá no fundo, onde talvez deva existir uma peça em cada ser humano. E enquanto os dias passam, vou calando minha inquietação com experiências cotidianas que servem para manter a minha sanidade e tentam impedir que eu afunde em pura angústia sem nome.

Essa angústia sem nome poderá ser chamada de solidão? E essa solidão não é fruto de minhas escolhas? Governo sobre mim mesmo e faço um péssimo trabalho no comando, permitindo o que não deveria e afastando o que mais procuro. E, quando tento divisar um futuro provável para mim, enxergo um terreno desolado, onde as flores já não germinam mais pela falta da emoção que é a água para a sua sobrevivência.

Incapaz de respirar livremente, aperto o nó que me sufoca. E continuo esperando pelo milagre sobre duas pernas que irá mudar a minha vida.

Porque sozinho...

terça-feira, 13 de março de 2012

Sob a sombra de um elefante

Hoje eu subiria a mais alta das montas apenas para gritar até não haver mais ar em meus pulmões - como isso me faria bem! Meus olhos ardem e pesam três quilos cada um, ou até mais. Minha cabeça... não sei o que há com minha cabeça, ou com meus sentimentos. Em um momento estou bastante contente e no outro sou um poço de escuridão impenetrável. Sei que tudo muda o tempo todo e cada experiência se reflete em meu comportamento e meu humor de alguma maneira, sendo ela ínfima ou grandiosa. Mas há alguma coisa me sufocando, me devorando de dentro para fora, me sugando as forças quando não há mais ninguém por perto...

Dentro de nós moram sombras perversas e cheias de artimanhas. Uns aprendem a domá-las desde cedo ou a até utilizá-las a seu favor, mas há aqueles que, como eu, já sucumbiram a elas há muito tempo. Já não sei se é por pensar demais, ou esperar demais, ou desejar demais por coisas que não acontecem em minha vida, mas minha sombra está maior que um elefante e sentada bem sobre minha cabeça agora. Ela nem sempre está lá, no entanto; ao lado de meus amigos, compartilhando todo tipo de besteiras com eles, sinto que ela vai se dissolvendo aos poucos, dando espaço aos sentimentos que realmente importam.

E então volto para casa, contente e satisfeito, desejando que essa emoção dure. Mas não dura, as coisas não são assim. Eu já aprendi a aceitar essa mudança natural e contínua de tudo que existe, especialmente aquelas transformações que acontecem dentro de mim feito pequenas explosões repentinas. Mas... não sei. Às vezes sou tão triste, tão chato, tão fraco que pareço assumir a forma de um buraco negro que vai sugando tudo ao seu redor. Todos temos nossos momentos assim, eu sei. Eu sei...

Só é um saco. Será que sou eu que escolho estar triste todo dia? Será que gosto de alimentar isso até que alguém apareça e me faça mudar de idéia? Será que ainda estou colocando sobre os outros uma responsabilidade que é minha? Se somos existências solitárias por natureza, minha solidão tem sido minha maior companheira, talvez por eu já não saber ou querer colocar em palavras o que se passa aqui dentro de mim. E, enquanto permaneço nesse estado, os dias vão passando e me deixando para trás, fadado a me alimentar de pequenas alegrias para continuar respirando, lúcido.

É... mas transformar em palavras realmente ajuda. Sinto que a cada momento tenho que cair para que eu seja capaz de compreender alguma coisa muito maior sobre minha vida e como levá-la adiante. Talvez seja o momento para eu lidar com essa tal sombra do tamanho de um elefante. Antes que ela devore minha luz.

"The enemy lives inside myself, yeah, I know"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Perdendo a cabeça (?)

Mais um sonho maluco para registrar. Acho que vou acabar fazendo bastante disso se eles continuarem acontecendo como estão e esse blog vai crescer magicamente, porque do jeito que a coisa anda... XD Geralmente escrevo de uma maneira mais polida aqui, sem usar meus emoticons de costume, mas hoje deixarei passar, serão necessários. Porque um emoticon traduz muito bem a natureza desse último sonho:

@__________@

Para quem entende, leu "LOUCURA" aí, ou algo do tipo. E foi exatamente isso que experimentei no sonho, como é perder a minha sanidade. Sem mais delongas, vamos a ele.

***

De fato, é terrível a gente não ter noção que está sonhando e viver aquilo tudo como se fosse realidade. Tudo seria muito mais fácil para mim se eu simplesmente pudesse dizer "ah, isso é um sonho" e resolver as coisas da forma como quisesse, mas eu não consigo fazer isso. Esse começou comigo vivendo numa cidade em que nunca estive, onde eu estudava com alguns primos meus e até amigos de infância em um colégio. A sala de aula parecia uma daquelas de colégio interno, com mesas claras e um papel de parede azul meio bebê, algo assim. Eu tinha memórias daquele lugar e daquelas pessoas, só que havia alguma coisa de errado com tudo aquilo. A gente tinha feito uma prova e a professora estava distribuindo para que cada um visse seus resultados. Fui o único a tirar dez (era mesmo sonho?!) e, por isso, ela pediu que eu ficasse para conversar com ela enquanto o resto da turma ia embora.

Uma prima minha, com quem estudei durante a minha vida escolar toda, me disse "você encontra com a gente depois naquele lugar!" e foi-se com os outros. Eu sabia de que lugar estavam falando, era uma espécie de venda onde a gente costumava se encontrar naquele mundo... tinha uns pufes enormes onde a gente podia sentar. Mas, ao mesmo tempo, parte de meu cérebro me dizia que eu não conhecia aquilo de verdade. Aquelas pessoas, aquele contexto... estava tudo errado. Eu não PERTENCIA àquele contexto, tinha uma certeza plena disso, porque havia memórias muito mais reais de outra vida em mim, da minha vida real e das companhias que eu costumava ter. Onde todo mundo tinha ido parar? O que estava acontecendo?

Aproveitei que tinha ficado sozinho na sala para sair do colégio escondido, porque precisava me situar de alguma forma. Um traço marcante desse sonho foi a clareza de alguns cenários para mim. Os chamo de "cenários" porque era o que pareciam mesmo, muito bem feitos e detalhados para soarem como os lugares normais que costumamos frequentar no cotidiano. O fundo do colégio me lembrava uma mansão vitoriana muito velha e cheia de arbustos. Eu havia saído de lá e... aí veio uma interrupção brusca do sonho. Não sei se acordei e voltei a dormir, mas sei que, quando me dei conta, já estava em outro lugar.

Não sabia exatamente onde era, mas sabia do que se tratava: era uma espécie de asilo. Eu sabia porque haviam me colocado ali, era um lugar para pessoas loucas, onde elas eram deixadas e esquecidas. E aquele desespero que havia nascido na sala de aula agora estava muito pior. Por algum motivo, estavam tentando me enganar ou me fazer enlouquecer, mudando tudo na minha vida de vez e agindo como se eu estivesse estranho. Não estava louco, não podia estar. Apenas queria voltar para a minha vida e fazer com que todo mundo parasse me tentar me convencer de que estava perdendo a sanidade. Sentia isso, mas não sabia o que fazer ou para onde ir. E assim esperei as pessoas saírem (não sei quem se tratavam e nem para onde foram, mas acho que eram enfermeiros) para tentar me esgueirar para fora mais uma vez. Conforme ia andando pela casa, o medo se tornava maior, porque era um ambiente tão carregado, cheio de quadros de velhos que pareciam ficar observando meus passos. Lembro vagamente de uma mesa de jantar de madeira antiga, de um corredor estreito por onde passei quase correndo até chegar numa sala enorme e toda vermelha. 

Na verdade, havia duas janelas cobertas com cortinas muito vermelhas e que lançavam a luz avermelhada sobre o cômodo todo. Havia vários sofás com estampas diferentes, arrumados como se fossem para causar uma impressão de sala de visitas. E, sobre os móveis e no tapete estava inúmeros gatos sentados ou deitados e todos pararam para olhar pra mim no exato instante em que apareci. Mas não lhes dei mais atenção do que o necessário, saí correndo pela porta e direto para uma rua que nunca tinha visto. Era larga, feita de pedra mesmo, e pra minha esquerda havia um teatro enorme e amarelo, desses que a gente vê em filmes americanos. Tentei correr em direção a ele, buscando alguém na rua, mas me faltavam forças... eu não sei o que havia de errado, mas conforme meu desespero aumentava, eu me sentia cada vez mais fraco, a ponto de me arrastar quase de quatro pelo passeio enquanto murmurava, pedindo ajuda.

As pessoas começaram a aparecer, mas quase todas desviavam de mim, com medo. Uma mulher tentou me dar dinheiro, como se eu fosse um mendigo, mas foi embora logo em seguida. Eles não pareciam capazes de me ouvir, de me dar qualquer atenção. E eu sabia que minha situação não ajudava em nada, só poderia fazê-los pensar num maluco necessitado no meio da rua mesmo, alguém que até mesmo eu evitaria. É horrível a sensação de que você está tentando fazer algum sentido, mas não consegue. Você se sente terrivelmente impotente... é de enlouquecer. De fato, parecia que estava realmente ficando louco, porque continuei me arrastando até perto de uma esquina, passando por cima de uma lama grudenta sem nem me importar e ainda tentando gritar por ajuda.

Foi quando houve uma segunda interrupção. Lembro de alguns vultos, de outras salas passando que como raios por mim, de eu tentando alcançar algum lugar que não sabia onde era, ou simplesmente repetindo para mim mesmo que eu deveria me controlar, mas incapaz de conter meus pensamentos. Eu estava mesmo ficando louco, não conseguia confiar nas minhas próprias ações, essa era a sensação que eu tinha. De que isso não iria passar nunca mais, de que não voltaria a ver as pessoas de que gosto, porque minha mente agora interpretaria tudo errado e eu estava preso dentro dela, sem ter como gritar ou fazer aquele turbilhão parar. Pareciam rios e rios de informações e emoções perdidas jorrando sem qualquer controle, assumindo as formas que mais lhe convinham e pouco se importando com as consequências disso. E só me restava me afogar nisso tudo. Era quase como estar com a mente presa dentro de um corpo totalmente estranho e alheio, incapaz de controlá-lo.

Na última parte do sonho me vi numa enfermaria também com cortinas vermelhas, só que dessa vez cobrindo até mesmo as paredes. Estava deitado numa cama com uma máquina na minha cara, talvez para me fazer respirar alguma medicação para me conter e me acalmar... e ao meu lado tinha um homem que lembrava muito meu pai mais jovem, quem eu reconhecia como um tio naquele momento. Ele estava com uma expressão cética, quase de desinteresse, enquanto uma menina muito estranha, com roupa de enfermeira e uma cara meio psicopata lia meu diagnóstico. Ela disse "ele tem uma pedra na vesícula, isso provoca dores fortes e delírios". Nesse momento, voltei a sentir desespero, porque finalmente haveria algo a culpar pela minha insanidade, talvez até uma forma de me curar dela e poder voltar para minha vida normal. Não acho que na vida real uma pedra na vesícula provocaria tudo isso, achei muito estranho ela dizer logo isso dentre tantas coisas, mas era um sonho maluco mesmo.

E então acordei. Olhei pro meu teto e respirei fundo. Nossa... como estava aliviado. Se em algum momento eu pudesse ter compreendido que ERA um sonho tudo teria sido muito diferente. Mas a sensação que tive ao acordar foi a de que havia finalmente conseguido voltar à minha vida, como se tudo tivesse acontecido mesmo. E, bem, pra mim meio que aconteceu, mesmo que só dentro de minha cabeça, porque foi muito real.

Bem, era o que eu queria mesmo, deixar o sonho registrado. Mais um, né. Do anterior eu consegui extrair alguma lição importante e uma experiências também (agora digo que "sei como é estar morto"), mas morrer num sonho não é nem de perto tão perturbador quanto perder a sanidade. Não poder mais confiar em si mesmo, no que você interpreta, no que você diz e muito menos em qualquer outra pessoa... nossa, foi uma das piores sensações que experimentei.

Não desejo isso pra ninguém. E muito menos vir a sentir isso de novo.

Mas é, com sonhos assim, fica até difícil convencer alguém de que sou uma pessoa normal.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Paixão prometida

Queria muito me apaixonar um dia
Queria encontrar na vida aquela pessoa
para quem eu entregaria meu coração,
meus sonhos e meus desejos

Queria encontrar os braços
onde poderia me aconchegar
E os olhos que me observariam com cuidado
e retribuiriam meu sorriso com um brilho de amor

Anos e anos se passaram
e o que encontrei, deixei passar
O que encontrei, não quis guardar
O que encontrei, deixei me magoar

Mas continuei desejando
e esperando me apaixonar

E, numa noite de profundo silêncio,
deitado, em silêncio, em minha cama,
abri meus olhos para minha vida
e para a paixão que tanto vivi a esperar

O que esperei, me mudou
O que esperei, me ensinou
Mas isso não era tudo que existia
para me fazer uma pessoa feliz

Agora, já queria encontrar algo mais
Aquela fagulha, aquela vontade
Aquela paixão que cresce e arde
de criar, de transformar a realidade

Quero me apaixonar um dia
pelo que escorre de minhas veias
para o mundo ao meu redor

Quero me apaixonar um dia
e transformar a minha vida
numa existência mais útil e melhor

Palavras foram ditas no passado
E gestos se perderam no vazio
Mas agora sei do amor que vem de dentro
e que pouco depende do que está alheio a mim

Quero me apaixonar um dia
por um lindo e grandioso sonho
Quero me apaixonar a tal ponto
de recriá-lo com minhas próprias mãos

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Uma visita ao outro lado (?)

 Tive um sonho muito estranho essa noite e que me deixou com uma forte impressão. Meus últimos sonhos tem sido bastante inquietantes, sempre com situações desconfortáveis nas quais tenho que me virar de alguma maneira, mesmo sem conseguir resolvê-las. E, como não consigo controlar meus sonhos como muitas pessoas conseguem, acabo vivendo-os enquanto durmo como se fossem mesmo uma realidade paralela. De uns nem me lembro quando acordo, mas de outros...

Fui me deitar e, de repente, me peguei pensando sobre alguns parentes meus que já se foram. Não eram pessoas próximas a mim e meu sofrimento pela partida deles acabou se dando mais por ver outras pessoas que amo sofrendo por eles. Comecei a divagar sobre como eles estariam e desejei, do fundo do meu coração, que estivessem bem. Talvez por isso esse meu sonho tenha falado de morte. Eu já tinha sonhado sobre esse tema antes e tinha sido terrível, também me deixou bastante abalado, pois nele uma pessoa muito importante pra mim havia morrido e eu precisei lembrar de que aquilo era um sonho quando acordei muito triste. Mas dessa vez a mensagem era muito diferente e, para recordá-la para mim mesmo, decidi escrevê-la aqui de uma maneira que me faça lembrar dele como o vi.

***

Havia uma bela moça. Seus cabelos castanhos faziam voltinhas, presos num penteado elegante e caindo sobre seus ombros. Trajava um vestido de um azul celeste, bonito e respeitável, com uma blusa branca cobrindo seus braços. Tinha um temperamento forte e uma personalidade irritante, gostava de jogar seus problemas sobre os outros. Eu sabia disso, porque... ela era eu. E eu era ela. Era normal para mim assumir o papel de outras pessoas em meu sonho, então até aí não havia nada de muito estranho.

Mas ela (ou eu) olhava ao redor, para o casarão branco que se estendia em frente ao gramado verde e fofo, onde cavalos pastavam tranquilamente, e não conseguia processar com precisão a pergunta: "onde estou?". Porque, em parte, aquele lugar era conhecido, mesmo não sendo. Seria uma mansão de uma família rica, sua família rica? Seria um museu? Parecia ser muitas coisas e muitos lugares ao mesmo tempo, mas ela conseguia se sentir em casa ali. De fato, quando paro para me lembrar da sensação que aquele lugar me dava era de que não se tratava de um lugar do passado, nem do presente ou do futuro. Ele estava em outro tempo, independente desses outros três.

Um dos cavaleiros, homem que a moça identificou como um de seus empregados, trocou algumas palavras com ela. Lembro-me das palavras dele, dizendo que "ela jamais mudaria, essa moça seria assim para sempre a partir de agora". Isso não fazia sentido, mas fazia ao mesmo tempo. Ela continuaria a mesma porque não haveria mais nada que ser mudado naquele lugar. Só que ela ainda não compreendia...

E foi quando o sonho mudou completamente. Eu já era eu mesmo. Estava dentro de um carro em minha cidade natal, dirigindo numa rua pouco movimentada e onde minha avó vive até hoje. Sabia que não tinha experiência para dirigir sozinho, sabia que não deveria estar fazendo aquilo, mas já era tarde. Tudo aconteceu muito depressa: o carro subiu no passeio, foi de encontro ao poste e... eu já não estava mais lá.

Acordei num lugar desconhecido e também familiar. Não "acordei" exatamente, apenas me vi lá, de pé, incapaz de sentir qualquer coisa por alguns momentos. Havia um muro que me lembrava muito da casa onde cresci e, nele, um buraco parecia se abrir pra ruas cheias de arbustos e casas que eu não conhecia. Então veio a sensação mais forte do sonho: eu havia morrido. Sentia uma culpa enorme por ter deixado aquilo acontecer comigo, imaginando como as pessoas haviam reagido ao saber do acidente ou se elas sequer souberam sobre ele. Pensei sobre minha mãe, acima de qualquer outra pessoa, e me peguei desejando poder falar com ela.

Mas eu não podia mais. Sabia disso. Não os sentia mais por perto, como parte de mim. Eu estava longe, para sempre longe, e me doía pensar na dor que estariam sentindo. Só me restava aceitar essa grande verdade absoluta sobre a minha existência, seja lá o que ela tivesse virado depois daquilo. Eu ainda era eu, apesar de tudo. E o que eu poderia fazer a partir daquele momento?


Sabia de uma maneira natural que meus desejos e sentimentos possuíam algum efeito direto sobre aquele mundo e eu precisava aprender a pensar positivo, ou criaria problemas para mim e para todos. Não sabia quem eram os outros, nem os vi ou me comuniquei com eles, mas os sentia lá e eles também me sentiam. Mais tarde teríamos a chance de falar.

E então o sonho se tornou ainda mais estranho, quando tentei atravessar o buraco no muro e acabei saindo nas ruas que não conhecia, longas avenidas circundadas por arbustos muito verdes e que levavam para alguma espécie de complexo de moradia, com prédios destruídos. Eu sabia que não deveria estar ali, as presenças lá fora não eram as mesmas que as do outro lado do muro e eu precisava fugir imediatamente, porque eles também sabiam sobre mim agora e queriam me capturar.

Isso se juntou à série de metáforas que poderiam me fazer concluir que fiz uma grande jornada astral pelo outro mundo, ou apenas interpretei várias informações sobre a morte que já ouvi falar em minha vida. Sonhos são mesmo assim, afinal, confusos e cheios de reviravoltas. Não lembro de ter sido capturado ou de ter escapado mesmo... mas, ao final do sonho, eu parecia ter voltado ao começo dele.

Eu era a moça de azul mais uma vez, ainda no mesmo casarão, olhando para o mesmo gramado cheio de cavalos. Mas aquela sensação de compreensão sem palavras, de aceitação de minha situação sem remédio... aquilo havia me transformado. Ela já não era a mesma e agora ela compreendia: ela nunca iria mudar, porque seu tempo havia acabado. Ela estava morta e não havia nada que pudesse fazer para reverter isso, poderia apenas aprender a lidar com isso para voltar se sentir bem. E assim ela respirou fundo, com os olhos fechados. E aceitou. E foi caminhando sob o sol, para lugar nenhum que ela pudesse conhecer, mesmo estando "em casa" agora.

E o cavaleiro repetiu as suas palavras amargas sobre a moça: "ela nunca vai mudar, continua sendo a mesma". Mas ela havia mudado.

***

Acordei com essa sensação de aceitação, pensando em meus amigos, em minha família. Pensando em minha mãe. Demorei para lembrar de que o acidente nunca havia ocorrido, eu não havia morrido. Me levantei e comecei o meu dia.

Pode ser que não, mas sinto que meus sonhos vem tentando me ensinar alguma coisa de maneiras duras e que me marquem de alguma forma. Me causando uma dor que trago direto para a realidade como se realmente tivesse acontecido, eles me fazem pensar sobre como tenho levado a minha vida e o que tenho deixado de fazer. E esse sonho, mesmo com as metáforas sobre morte e existência, me disse uma coisa importante: aceitar. Aceitar minha falta de controle sobre o mundo ao meu redor e aceitar que, em vários momentos, posso apenas abraçar meus sentimentos e desejar que as coisas se resolvam, mesmo sendo incapaz de evitar me sentir mal ou provocar isso sobre os outros. Porque sou apenas uma existência volátil e cheia de ramificações... Mas que quer aprender a aceitar a incapacidade de mudar tudo ao meu redor, para poder viver mais livremente.

Talvez essa postagem não venha a fazer muito sentido, afinal de contas a mensagem do sonho foi dirigida a mim mesmo, se é que ela existe. Como disse, há sonhos que prefiro não esquecer pela sensação que me provocam e agora sinto que consegui registrá-lo com mais clareza. É o que importa.

Nada mudou com isso, na verdade. Mas essa sensação de aceitação é algo que quero levar comigo e aplicar em minha vida quando achar necessário.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Minha passagem

Me sinto incapaz de realizar qualquer coisa satisfatoriamente. Até esse momento eu tentei controlar a minha existência e transformá-la em alguma outra coisa de maior valor, comparando o que faltava em mim com o que sobrava nos outros. Dessa forma, eu seria um ser perfeito, bom o suficiente para que todos gostassem de mim e me aceitassem como sou, ou ao menos quem eu havia me tornado. Todo esse esforço por eles e por mim. Por não ser bom o suficiente.

E agora... depois de achar que havia mudado, que havia aprendido a valorizar o que há em mim, me sinto como uma criancinha de novo. Sempre busquei a imagem de uma pessoa inteligente, sagaz, capaz de se virar sozinha, respeitável e culta nos assuntos que me interessavam. Vivi como se a vida fosse feita de lógica e devesse ser compreendida dessa maneira, então minhas atitudes eram resultados de cálculos criados para evitar a tão temida falha. Porque falhar era inaceitável. Falhar significaria mostrar que não era perfeito, mostrar que não era bom o suficiente e fazer as pessoas desistirem de minha presença. Viver agradando, convencendo-as do contrário... esse era o caminho correto. Aprendi isso em casa. Aprendi isso na vida. A vida toda.

E agora, depois de achar que aprendi tanto sobre tantas coisas, vejo que realmente não sei fazer algo bem simples: viver. Eu não sei o que é... viver. Simplesmente viver. Deixar as coisas fora do meu controle e aceitar quem eu sou... aceitar que quem eu sou é parte de uma mudança constante que acontece ao redor de mim o tempo inteiro, com todas as experiências que provocamos e pelas quais passamos, independente de nossos desejos. Essa sabedoria nunca me pertenceu e eu realmente, realmente não sei como fazer, por onde devo começar.

Não me sinto forte para confiar em mim mesmo, então não confio nos outros também. Me sinto, às vezes, como uma existência sem sentido, buscando comprovar que tem o direito de permanecer entre as outras. Mas em alguns momentos eu quero só me deixar desaparecer... assim talvez alguém note meu sofrimento e tente me resgatar, me faça ver o que não consigo. Só que esse não é o caminho para eu me sentir melhor, sei disso. E nem tenho pensamentos suicidas, se é o que meu texto pareceu mostrar até agora.

Só... não consigo acreditar no orgulho que as pessoas dizem sentir de mim. Não consigo acreditar que haja alguém que me conheça realmente, sinto como se estivesse enganando a todos o tempo todo, especialmente a mim mesmo. Mas não sei dizer o porque disso ou que partes de mim deixei de tentar mostrar, é apenas uma sensação irracional que me acompanha desde que me lembro.

Essa dor é necessária para meu crescimento, de criança para adulto, e sei que vou atravessá-la, seja para melhorar de vez ou só para adiá-la. Mas para alguém que cresceu se culpando, se cobrando, se criticando e acreditando que não haveria uma alma nesse mundo capaz de aceitá-lo como é... se aceitar fica difícil. Não tentar ser o outro e nem sentir inveja da felicidade alheia é difícil. Não alimentar pensamentos sujos e escondê-los por trás de uma máscara de sorriso e bondade é muito difícil.

Mas é ainda pior ter que continuar assim. Estou nascendo para o mundo? Precisa mesmo doer tanto? Por que não me ajudaram antes? Por que nem ninguém me disse as coisas que precisava ouvir enquanto crescia? Droga, por que me deixaram ir tão longe em minha loucura auto-destrutiva? Ninguém responde. Ninguém responderá. Foram só as minha escolhas e as dos outros, cada um achando que estava fazendo o melhor, mesmo que fosse mentira.

Me sinto perdido e triste o tempo todo desde essa descoberta. E sinto muita vergonha em admitir tudo isso, o que mostra que ainda não me aceito como sou, só consigo pensar no que poderia e deveria ser. Sou meu pior inimigo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tudo que quero ser

É muito fácil eu perder a linha de meus pensamentos e deixar que minhas ações sejam guiadas pelos motivos errados. Estou tão acostumado a precisar das opiniões alheias que me sinto preso a um hábito antigo. Esse lixo se depositou em minha mente criando muitas camadas, soterrando minha visão sobre mim mesmo e minha vontade de lutar pelos meus sonhos. Porque eu queria manter as coisas perfeitas para nada perder, fossem pessoas ou momentos. Mas nada me pertence e tudo há de se perder um dia, menos quem somos.

Por desejar ser amado, me acorrentei ao desejo de outras pessoas. Por desejar ser elogiado, tolhi meus talentos e me privei de tentar e aprender errando. Por temer ser rejeitado, fingi qualidades e defeitos que não me pertencem de verdade. E tudo isso agora, vejo, é lixo. É claro que todos queremos ser amados, elogiados, respeitados. Mas há uma grande diferença entre quando você sabe que merece tudo isso por ser quem você é, fazendo as coisas do seu jeito, e agir para apenas conseguir certas reações dos outros. O vazio que procede dessa atitude invalida nossos esforços, nos mostrando quanto trabalho tivemos para controlar o que ninguém controla.

Se somos todos pássaros nessa vida, uns voam mais alto que outros. Uns deixam seus ninhos com mais facilidade que os outros. Mas não há de se confundir essas atitudes com a nossa natureza: todos temos asas, todos podemos voar à nossa maneira.

Confiar em mim mesmo, limpar todo o lixo que acumulei e colocar meus pensamentos no lugar... isso é o que irei fazer. Porque não quero ser amado, nem elogiado, nem aceito. Eu quero ser eu mesmo, com todas as minhas deformidades psicológicas, com todos os meus anseios e meus talentos. Descubro assim um amor narcisista que desconhecia, um amor que me torna capaz de amar aos outros da maneira devida também, como cada um merece.

Estou pronto para dizer: me odeiem! Me detestem, me atinjam, me rejeitem! Estou aqui, estou vivo e mudar pelos outros já não é mais uma opção. Vou abrir minhas asas e voar ao meu modo, levando a minha vida para onde meus instintos me mandarem.

Porque tudo que eu posso ser está em mim. E tudo que eu quero ser é quem eu sou.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Uma coisa para não esquecer

É incrivelmente fácil perder o foco nessa vida. Quando estamos começando um projeto, querendo colocar uma idéia em prática, o que realmente determina se ela irá para frente ou não? Será apenas a nossa vontade? Até onde os fatores externos influenciam de verdade na nossa decisão (ou na falta dela)? Será tão difícil só continuar desejando ver aquele projeto terminado tão ardentemente como quando ele estava nascendo de nossas cabeças?

Hoje posso dizer que sou um artista muito melhor do que fui um dia, porque consigo resultados melhores. Cresci como pessoa e isso influencia diretamente no que faço, porque sou o que faço. Mas... de que adianta adornar com brilhantes uma peça que jamais será usada? Cuidar e desenvolver uma habilidade que nutrirá um hobby eterno e sem futuro? É como ficar enchendo um poço sem fundo, é um trabalho inútil.

Hoje tenho um estágio, tenho um salário e, incrivelmente, tempo de sobra para desenhar até minha mão cair. E assim tenho feito, o que me deixa satisfeitíssimo. Porém... e aqueles planos antigos? O que eu queria mesmo desenhando? Uma história cresceu dentro de mim e eu tenho muito medo de que ela morra. Me desespera saber que só depende de mim para que isso não aconteça, pois os outros estão a nossa volta apenas para nos dar o apoio que podem, mas não irão mover nossas mãos por nós. E pensar no carinho que senti quando fiz apenas 12 páginas daquela história me faz querer ser uma pessoa melhor... para finalmente terminá-la!

É como a profunda dor de estar saindo do casulo, como já falei antes para quem puder lembrar. Estou esticando minhas mãos para fora de lá... de novo. Mas percebo que não quero esticá-las, ao mesmo tempo. Porque não acredito em mim e nem que essa história vá realmente se concretizar. "Hoje não tô a fim... depois desenho... isso não tá certo... não sei o que fazer...", todos esses pensamentos deixam de ser simples sensações naturais quando viram desculpas para não ir adiante numa idéia, numa vontade. Já percorri todos os caminhos da desistência e sei que terminam na sensação de inutilidade e infelicidade, o que resulta no incômodo constante ao ver que alguém ao seu redor produz algo e você não. Como posso me sentir realizado se não fiz absolutamente nada até agora?

É sempre bom saber que por mais que contemos com os outros, por mais que estejamos bem acompanhados e felizes, uma pessoa precisa querer fazer o bem a si mesma. Porque ninguém vai realizar seus sonhos pessoais. Nada vai mudar de lugar, de cor, de forma para um caminho se abrir magicamente. E somos responsáveis pela grande inércia em que nos deixamos mergulhar por tanto tempo, deixando os sonhos escaparem pelos dedos.

Eu decidi ser feliz. Mas não sou forte para ser feliz. Então decidi que serei forte.

E assim criarei minha felicidade com minhas próprias mãos!